Cirurgia do Aparelho Digestivo

Cérebro trabalha durante o sono e ajuda a proteger memória e emoções, diz neurocirurgião

Especialista da Unicamp explica por que dormir bem é um processo ativo do organismo e alerta para sinais como ronco intenso e cansaço ao acordar, que podem indicar distúrbios com impacto na saúde.

Por Redação Brazil Health , 16/03/2026

4 min de leitura

Cérebro trabalha durante o sono e ajuda a proteger memória e emoções, diz neurocirurgião

Dormir não é “desligar” o corpo. Durante o sono, o cérebro permanece em atividade e executa funções ligadas à consolidação da memória, ao aprendizado e ao equilíbrio emocional, além de participar de processos que podem influenciar o risco de doenças ao longo da vida. A atenção ao tema é relevante porque cerca de 40% da população mundial tem algum distúrbio do sono, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Dormir não é simplesmente desligar o cérebro. Durante o sono, ele entra em um dos períodos mais ativos de reorganização e manutenção do corpo humano, um processo fundamental para o equilíbrio do organismo”, afirma Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da disciplina de Neurocirurgia da Unicamp.

Quando os problemas de sono se tornam crônicos, como ocorre em quadros de insônia e apneia, o impacto pode ir além da sonolência diurna. Evidências associam essas alterações persistentes a maior risco de doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes, além de efeitos sobre a saúde mental.

O que muda no cérebro enquanto dormimos

O ciclo sono–vigília depende de uma interação entre sinais químicos e redes neurais. Entre os mecanismos citados por especialistas está a adenosina, substância que se acumula ao longo do dia e aumenta a sensação de cansaço quanto mais tempo a pessoa permanece acordada. Durante o descanso, esses níveis caem, ajudando o organismo a recuperar o estado de alerta no dia seguinte.

Ao longo da noite, o cérebro alterna fases com padrões diferentes de atividade. No sono profundo, ocorrem ajustes importantes nas conexões neurais. Já no sono REM, mais associado a sonhos vívidos, áreas ligadas a memória, emoções e processamento de experiências ficam mais ativas. A passagem adequada por essas etapas favorece que informações do dia sejam reorganizadas e estabilizadas, com reflexos no aprendizado.

Riscos de dormir pouco, dormir demais e sinais de alerta

A necessidade de sono varia conforme a idade. Crianças e adolescentes tendem a precisar de mais horas por estarem em fase intensa de desenvolvimento. Em idosos, é comum haver maior fragmentação do sono, em parte por mudanças no ritmo circadiano e na arquitetura do descanso.

Para Valadares, a qualidade do sono tem efeito direto no dia a dia e também no longo prazo. “A qualidade do sono influencia diretamente funções como memória, concentração e equilíbrio emocional. Quando o sono é negligenciado por longos períodos, o impacto pode ser percebido tanto no desempenho cognitivo quanto na saúde geral”, diz.

Estudos populacionais também apontam que tanto dormir pouco quanto dormir em excesso pode se associar a pior desfecho. Pesquisas citadas no material indicam aumento do risco de mortalidade em pessoas que dormem menos de cinco horas ou mais de nove horas por noite, em comparação com quem costuma dormir cerca de sete a oito horas.

Entre os sinais que merecem investigação, o neurocirurgião destaca dificuldade persistente para dormir, acordar cansado com frequência, ronco intenso e pausas respiratórias durante a noite. “Quando o indivíduo apresenta dificuldade persistente para dormir, acorda cansado com frequência, ronca intensamente ou tem pausas respiratórias durante o sono, é fundamental procurar avaliação médica”, ressalta.

Mitos e verdades que confundem quem quer dormir melhor

O especialista reforça que algumas práticas comuns podem atrapalhar. Entre os pontos mencionados, estão:

  • Compensar pouco sono na semana dormindo muito no fim de semana pode aliviar o cansaço, mas não reverte totalmente os efeitos da privação crônica.
  • Cochilos curtos, em geral entre 10 e 30 minutos, podem ajudar na atenção; cochilos longos ou muito tarde tendem a prejudicar o sono noturno.
  • Manter horários regulares para dormir e acordar favorece a sincronização do relógio biológico; reduzir telas e luz forte à noite e evitar estimulantes perto da hora de dormir pode ajudar.
  • Roncar não deve ser banalizado: pode ser sinal de apneia obstrutiva do sono, relacionada a maior risco de hipertensão e doenças cardiovasculares.