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Memórias podem mudar: descoberta no cérebro abre caminho para tratar traumas

Estudos mostram que lembranças emocionais ficam temporariamente “maleáveis” quando são reativadas, o que pode ajudar em casos como TEPT, ansiedade e depressão, com técnicas terapêuticas estruturadas.

Por Redação Brazil Health , 25/06/2026

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Memórias podem mudar: descoberta no cérebro abre caminho para tratar traumas

Por muito tempo, a ciência tratou as memórias como registros praticamente fixos: uma vez consolidadas, permaneceriam estáveis ao longo da vida. Nas últimas décadas, porém, pesquisas em neurociência vêm derrubando essa ideia ao demonstrar que lembranças — especialmente as ligadas a forte carga emocional — podem ser atualizadas quando são acessadas novamente.

O psiquiatra e neurocientista Diogo Lara explica que esse mecanismo é chamado de reconsolidação de memórias. “Quando uma lembrança é reativada, ela pode entrar por um período curto em um estado de instabilidade e, nesse intervalo, torna-se mais suscetível a mudanças antes de ser armazenada de novo”, afirma.

A virada ganhou força no início dos anos 2000, quando experimentos liderados pelo neurocientista Karim Nader, da Universidade McGill, indicaram que memórias já consolidadas não ficam “intocáveis” para sempre: ao serem lembradas, podem voltar a uma condição temporariamente plástica. A partir daí, uma nova frente de pesquisa passou a investigar como esse fenômeno pode ajudar a reduzir respostas emocionais persistentes, como medo intenso e reações de alerta.

Trabalhos conduzidos por pesquisadores como Joseph LeDoux, em Nova York, e Daniela Schiller, em Harvard, aprofundaram a compreensão dos circuitos cerebrais relacionados ao medo condicionado. Os estudos apontaram que, se a lembrança associada a uma ameaça é evocada e, durante a janela crítica de instabilidade, a pessoa vivencia algo que contraria a expectativa original, pode haver mudança duradoura na resposta emocional.

Na prática, isso ajuda a explicar por que algumas pessoas seguem reagindo como se ainda estivessem em perigo, mesmo quando sabem racionalmente que a ameaça passou. Esse padrão é comum em quadros como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão e transtornos de ansiedade, em que experiências do passado continuam sendo reativadas no presente.

“O sujeito pode entender que não há risco, mas o corpo continua a responder como se a situação original ainda estivesse acontecendo”, destaca Diogo Lara.

Como a reconsolidação pode influenciar a terapia

A proposta de trabalhar com reconsolidação vai além de apenas “pensar diferente” ou adotar novas estratégias comportamentais. A ideia central é que, ao acessar uma lembrança emocional e, em seguida, passar por uma experiência corretiva que contradiga o que estava “gravado” naquela memória, o cérebro pode atualizar o registro original — e não apenas aprender a conviver com ele.

O pesquisador Bruce Ecker descreveu esse mecanismo como base de intervenções voltadas a mudanças profundas, nas quais a transformação não depende necessariamente de repetição exaustiva, mas da ativação precisa de conteúdos implícitos seguida de uma experiência discrepante, capaz de alterar a resposta emocional.

Para Diogo Lara, o impacto é sentido de forma concreta por quem passa pelo processo. “A mudança é percebida como profunda e real, porque envolve atualização do registro emocional, não só controle de sintomas”, explica.

O especialista ressalta que isso não significa descartar abordagens já estabelecidas na saúde mental. Terapias tradicionais continuam tendo papel importante e podem ser úteis em muitos contextos. A diferença, segundo ele, é que ignorar as evidências mais recentes pode reduzir as possibilidades de cuidado disponíveis.

O papel do terapeuta e as novas fronteiras

Outra discussão que ganha espaço com esse avanço é a formação dos profissionais. Protocolos baseados em reconsolidação tendem a ter uma estrutura objetiva, com etapas definidas e carga horária delimitada para aprendizagem inicial. Ainda assim, a efetividade não depende apenas de seguir um roteiro.

“O método organiza o percurso, porém a presença do terapeuta viabiliza a mudança”, afirma Diogo Lara. Na avaliação dele, o sistema nervoso responde não apenas ao que é dito, mas ao contexto relacional em que a lembrança é evocada — o que envolve regulação emocional, atenção e segurança durante o processo terapêutico.

O tema também se conecta a pesquisas sobre recursos que podem influenciar a plasticidade cerebral quando usados de forma supervisionada e dentro de um enquadramento clínico estruturado. Lara cita, por exemplo, o interesse científico em substâncias com potencial modulador, como a quetamina, associada a intervenções psicoterápicas. A proposta, nesse caso, é ampliar janelas de reorganização neural com foco na modificação de redes emocionais — e não apenas na supressão temporária de sintomas.

Para o psiquiatra, a saúde mental vive um momento de transição. A incorporação de evidências neurobiológicas sobre como memórias emocionais podem ser atualizadas tende a influenciar desde a pesquisa até a clínica, incluindo técnicas já conhecidas por parte do público, como a EMDR, citada pelo especialista.

“O futuro da psicoterapia dependerá da capacidade de unir evidência neurobiológica, técnica estruturada e presença humana”, conclui Diogo Lara.