Cirurgia Oncológica

Inveja pode causar dor real no cérebro e afetar a saúde mental, dizem especialistas

Sentimento nasce cedo com comparações e disputas por atenção e, na vida adulta, pode alimentar ansiedade, baixa autoestima e ruminação; autoconhecimento e terapia ajudam a transformar o incômodo em motivação.

Por Redação Brazil Health, 26/07/2026

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Inveja pode causar dor real no cérebro e afetar a saúde mental, dizem especialistas

A inveja costuma ser tratada como falha de caráter, mas pode ser entendida como uma resposta emocional aprendida ao longo da vida, especialmente a partir de comparações e disputas por reconhecimento. Para a psicóloga clínica e neuropsicóloga Mariza Souza, a origem do sentimento muitas vezes está nas experiências precoces, quando a criança passa a associar valor pessoal ao quanto é escolhida, elogiada ou “preferida” em relação aos outros.

Na escola e em casa, situações aparentemente pequenas podem reforçar a lógica de competição: quem ganha atenção, quem recebe destaque, quem é apontado como exemplo. Com o tempo, esse padrão tende a se aprofundar quando adultos comparam irmãos, primos ou filhos de amigos, mesmo sem intenção. O resultado, segundo a especialista, é a formação de uma régua emocional em que o próprio mérito passa a ser medido pelo desempenho alheio.

Na vida adulta, o mecanismo deixa de ser apenas uma disputa infantil e se conecta a frustrações e expectativas não cumpridas. O contraste entre a própria rotina e o sucesso — real ou aparentado — do outro costuma ser o gatilho. Depois de um dia cansativo, por exemplo, ver nas redes sociais alguém em uma viagem dos sonhos pode gerar uma “fisgada” imediata. Nem sempre há desejo de que o outro se dê mal, mas um incômodo por perceber a distância entre o que se vive e o que se gostaria de viver.

O que a neurociência já observou

Pesquisas na área mostram que esse sofrimento não é apenas “imaginação”. Estudos conduzidos por Hidehiko Takahashi, da Universidade de Kyoto, indicam que, ao ver alguém conquistar algo que desejamos, o cérebro pode ativar o córtex cingulado anterior, região ligada à dor emocional.

O mesmo conjunto de estudos aponta que, quando a pessoa invejada sofre uma perda, pode haver ativação do estriado ventral, área associada à sensação de prazer. Isso ajuda a explicar por que a comparação social pode virar um ciclo difícil de romper: desconforto ao ver o sucesso do outro e alívio quando ele “cai”. Repetido ao longo dos anos, esse padrão tende a aumentar a vulnerabilidade a ansiedade, depressão, baixa autoestima e ruminação — quando a mente fica presa ao mesmo pensamento por longos períodos.

Mariza Souza destaca que reconhecer a inveja como parte da experiência humana não significa se resignar. “Sentimentos difíceis são inerentes ao ser humano; o que nos define é o que fazemos com eles”, afirma. Na prática clínica, ela explica que um passo central é desenvolver autoconhecimento para identificar gatilhos, expectativas e comparações automáticas, transformando reações impulsivas em escolhas mais maduras.

Na psicoterapia, também é possível diferenciar dois caminhos comuns do mesmo sentimento: a inveja que inspira e impulsiona mudanças — quando vira um sinal do que se deseja construir — e a inveja que destrói, quando se transforma em hostilidade, sabotagem ou sofrimento persistente.

Outro ponto importante, segundo a especialista, é aprender a reconhecer quando a inveja parte do outro e aparece como crítica constante, ataque ou desqualificação. “Muitas vezes, essas reações dizem mais sobre as dores de quem ataca do que sobre a capacidade de quem recebe”, afirma Mariza Souza.

Ela alerta ainda para um risco frequente: tratar a inveja apenas como algo externo, místico ou “energético”. Para a psicóloga, essa leitura pode afastar a pessoa da responsabilidade emocional e da chance real de mudança. “O que é humano precisa ser gerenciado, não exorcizado”, diz.

Compreender a inveja, na avaliação da especialista, é um passo decisivo para reduzir a culpa, interromper comparações que adoecem e abrir espaço para uma vida emocional mais estável — com mais honestidade sobre desejos e limites e menos sofrimento provocado pelo sucesso alheio.