Cansaço

Na Era do Desempenho, o Novo Cansaco de Ser si Mesmo e o Valor da Pausa

Psicanalista alerta que a cultura do rendimento transforma o autocuidado em cobrança e alimenta ansiedade, insônia e burnout.

Por Redação Brazil Health , 23/10/2025

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Na Era do Desempenho, o Novo Cansaco de Ser si Mesmo e o Valor da Pausa

Em um cotidiano guiado por metas, métricas e performance, até o descanso virou tarefa. A exigência constante de estar bem e produzir sem pausa tem cobrado um preço alto na saúde mental dos brasileiros.

“O sujeito contemporâneo é patrão de si mesmo — se cobra, se vigia e se exaure”, afirma a psicanalista Camila Camaratta. “É como se a liberdade tivesse se tornado sinônimo de disponibilidade. Ser livre, hoje, é não poder parar.”

Os números ajudam a dimensionar o quadro. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil lidera os índices de ansiedade no mundo, com 9,3% da população diagnosticada. Já a ISMA-BR aponta que 37% dos profissionais apresentam sintomas de burnout, uma das taxas mais altas do planeta.

Cultura do desempenho em alta

Para Camaratta, confundimos potência com desempenho. “A cultura do desempenho transformou o velho ‘conhece-te a ti mesmo’ em ‘melhora-te a ti mesmo’”, diz. O que antes era convite à reflexão tornou-se obrigação de eficiência emocional, orientada por resultados.

Nessa lógica, sentir-se bem vira meta a ser cumprida, mesmo quando não se está. Emoções ganham prazos e, quando não atendem à expectativa, reforçam a sensação de inadequação.

Autocuidado sob cobrança

Aplicativos que monitoram sono, relógios que contam passos, dietas para “otimizar” energia: a rotina de autocuidado passou a operar no modo checklist. “O autocuidado transformou-se em uma exigência camuflada em cuidado. O descanso precisa ser produtivo”, observa a psicanalista.

O DataReportal 2025 estima que os brasileiros passam, em média, 9h42 por dia conectados, sendo 3h15 nas redes sociais. A vida mediada por telas e comparações constantes pressiona para parecer sempre bem — ainda que não se esteja.

“O corpo perfeito virou meta. O humor, indicador de desempenho. E o desejo, tarefa”, afirma Camaratta. “Mas essa busca por equilíbrio e controle é justamente o que adoece. Porque viver também é poder se desorganizar um pouco.”

Quando o sintoma fala e a pausa é possível

Quando faltam palavras para dizer o que oprime, o mal-estar se manifesta no corpo e no humor: cansaço crônico, ansiedade, insônia e uma impotência que é menos física e mais simbólica. “Vivemos cercados de discursos que prometem foco, produtividade e sucesso, mas o que se perde é o espaço do desejo”, diz a especialista. “E o desejo não se fabrica — se reconhece.”

Nesse cenário, a psicanálise propõe resgatar a pausa. “Na análise, é possível não corresponder, não render, não querer. É o lugar onde se pode simplesmente existir — sem metas, sem métricas, sem pressa”, afirma Camaratta. “Descansar, hoje, não é somente parar e desconectar — é poder se escutar. E, quem sabe, se reencontrar um pouco com o que ainda resta de si.”