Psicologia

Por Que é Tão Difícil Dizer Não no Trabalho? E Como Isso Adoece o Profissional

Equilibrar os limites no trabalho ajuda a preservar a saúde, fortalecer relações e prevenir o esgotamento, trazendo mais bem-estar e confiança para a rotina profissional.

Por Dra. Miryam Cristina Mazieiro Vergueiro da Silva , 29/08/2025

5 min de leitura

Por Que é Tão Difícil Dizer Não no Trabalho? E Como Isso Adoece o Profissional

Falar “não” no ambiente profissional, embora pareça simples, pode ser um desafio para muitos, impactando diretamente saúde mental e o equilíbrio nas relações de trabalho.

Quantas vezes você disse ‘sim’ nos últimos dias… querendo dizer ‘não’?

Algumas pessoas, devido a características de personalidade, têm dificuldade em recusar demandas, o que pode estar relacionado a:

  • Cultura e criação: fomos ensinados a agradar os outros e evitar conflitos;
  • Medo de rejeição: receio de desapontar o outro ou perder oportunidades, criando “mitos” sobre exclusão ou desafeto ao desapontar alguém;
  • Acreditar que ser prestativo é sempre uma virtude a ser cultivada;
  • Perfeccionismo: a crença de que só elas podem executar determinada tarefa com excelência.

Para essas pessoas, o impacto de sempre dizer sim pode gerar sobrecarga e consequências emocionais como estresse, ansiedade, ressentimento; físicas, como cansaço crônico e adoecimento por excesso de trabalho; relacionais, com desgaste e perda de autenticidade; e profissionais, como queda na produtividade e qualidade do trabalho.

Essa sobrecarga física e emocional pode desencadear um diagnóstico cada vez mais comum: a síndrome de burnout. Essa condição se caracteriza pela exaustão emocional — esgotamento físico, mental e emocional — levando a um afastamento das pessoas, que passam a ser vistas como fontes de estresse, afetando a empatia e o relacionamento com colegas e clientes. Outra manifestação do burnout é a falta de realização profissional, quando o trabalhador sente que seu trabalho não faz diferença ou não consegue lidar com eficiência com os problemas do dia a dia.

Para que essa síndrome seja caracterizada, a fonte de estresse deve necessariamente estar relacionada ao trabalho. O Código Internacional de Doenças (CID-11) define o burnout como um “fenômeno ocupacional”.

Assim, a síndrome, descrita como “resultante do estresse crônico no ambiente de trabalho que não foi bem administrado”, evidencia dois fatores essenciais:

  • As características individuais;
  • As condições da organização do trabalho, com seus fatores de risco psicossociais — os principais condicionantes do burnout.

Esses fatores de risco podem incluir sobrecarga, ritmo intenso de trabalho (múltiplas tarefas sem tempo suficiente para realizá-las dentro da jornada), falta de controle sobre as próprias funções, recompensas insuficientes, ausência de apoio social de colegas e liderança, e desequilíbrio entre vida pessoal e profissional, sem acordos claros para atender outras demandas da vida.

Para as empresas, esse diagnóstico traz implicações na Legislação Trabalhista, invertendo o ônus da prova: cabe ao empregador demonstrar que o adoecimento não decorre do ambiente profissional. Em caso de afastamento, o benefício do trabalhador pode ser convertido de B31 (adoecimento comum) para B91 (acidente de trabalho), concedendo direitos como a estabilidade por um ano, entre outros.

Diante desse cenário, a intervenção para um colaborador acometido pelo burnout deve ser em duas frentes:

  • Tratar o indivíduo: afastamento do trabalho, se necessário, uso de medicação, psicoterapia e prática de exercícios.
  • Melhorar o ambiente, eliminando ou minimizando fatores de estresse e promovendo fatores de proteção (autonomia, apoio social, equilíbrio entre casa e trabalho, etc.).

Para o indivíduo, o autoconhecimento e o autocuidado são fundamentais para evitar a necessidade de assistência especializada. Uma estratégia importante é aprender a recusar demandas excessivas, o que depende também de estar inserido em um ambiente que ofereça segurança psicológica, oportunidades de escuta e acordos claros entre liderança e equipe.

Quando o trabalhador tem clareza de suas prioridades e de seu papel no contexto profissional, facilita a negociação com a empresa. Dessa forma, conquista mais tempo e energia para aquilo que realmente importa, mantém relações mais saudáveis e transparentes e aumenta sua autoestima e autoconfiança.

Em situações onde características pessoais dificultam a negativa, é preciso praticar o “não” em situações cotidianas. Exemplos de estratégias incluem:

  • Pausar antes de responder: “Posso te responder depois?”
  • Ser claro e objetivo, evitando justificativas longas;
  • Oferecer alternativas: “Não posso agora, mas posso na próxima semana.”
  • Usar o “não” positivo: reconhecer o pedido, mas manter seus limites;
  • Dizer, por exemplo: “Eu entendo que isso seja importante, mas no momento preciso focar em X.”
  • Treinar em situações pequenas para ganhar confiança aos poucos.

Cuidar do ambiente, reforçando fatores de proteção, contribui para prevenir recaídas e novos afastamentos por burnout. Se o ambiente de trabalho não for modificado, o retorno do trabalhador pode levá-lo ao contato com os mesmos fatores adoecedores, aumentando o risco de novo afastamento.

Miryam Cristina Mazieiro Vergueiro da Silva – CRP 39594

Mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da USP.

Diretora de Psicologia da empresa Gattaz Health & Results (GHR), especializada em Saúde Mental.

Psicóloga do Trabalho no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Coordenadora do curso de Especialização em Saúde Mental nas Empresas da Faculdade de Medicina da USP.