Psicologia

Ansiedade nem sempre é um problema, mas pode gerar sofrimento quando não há pausas

A psicóloga Maria Klien propõe uma reflexão sobre a ansiedade para além dos rótulos e explica como esse mecanismo natural pode afetar a saúde emocional quando se torna constante na vida cotidiana.

Por Redação Brazil Health , 19/05/2026

3 min de leitura

Ansiedade nem sempre é um problema, mas pode gerar sofrimento quando não há pausas

A ansiedade costuma ser tratada apenas como algo negativo, um sintoma que precisa ser eliminado o mais rápido possível. Mas a verdade é que ela faz parte da experiência humana. É a ansiedade que nos prepara para situações desconhecidas, nos mantém atentos diante de riscos e ajuda o organismo a reagir ao que exige cuidado ou adaptação.

Existe uma ansiedade funcional, necessária para a vida. Ela mobiliza energia, direciona atenção e ajuda a lidar com situações importantes. O problema não está na existência da ansiedade, mas em quando ela deixa de ser passageira e começa a ocupar espaço demais na vida psíquica.

O sofrimento aparece quando o estado de alerta se torna permanente. A mente não desacelera, o corpo permanece tensionado e até momentos simples passam a ser atravessados por preocupação excessiva, medo antecipado e sensação constante de urgência.

Na prática, isso pode surgir através de pensamentos acelerados, dificuldade de relaxar, irritabilidade, cansaço emocional, insônia e necessidade excessiva de controle.

Quando o corpo já não consegue descansar

O modo de vida contemporâneo favorece esse funcionamento. Excesso de informação, hiperconectividade, cobranças constantes e estímulos permanentes dificultam pausas reais e fazem muitas pessoas viverem em estado contínuo de vigilância.

A mente humana não foi construída para funcionar o tempo inteiro em alerta. Quando não existe descanso emocional, o organismo perde a capacidade de distinguir o que é ameaça concreta daquilo que é apenas antecipação.

Outro aspecto importante envolve a relação com o futuro. Muitos quadros ansiosos estão ligados à tentativa de prever tudo, controlar tudo e evitar qualquer possibilidade de desconforto.

Existe uma ilusão de controle muito presente na ansiedade. Quanto mais se tenta antecipar todos os cenários, mais distante se fica da experiência do presente e maior se torna o próprio desgaste emocional.

Lidar com a ansiedade não significa simplesmente silenciar sintomas. Em muitos casos, o sofrimento diminui quando existe compreensão sobre o que aquele estado emocional está tentando comunicar.

Escutar a ansiedade não é se entregar a ela. É reconhecer que existe algo precisando de atenção, elaboração ou cuidado.

Mais do que classificar a ansiedade como vilã ou inimiga, é importante ampliar a compreensão sobre um fenômeno emocional complexo, presente em diferentes graus e contextos da vida humana.

O que determina o sofrimento não é apenas sentir ansiedade, mas a forma como ela se instala, se prolonga e interfere na relação consigo mesmo, com o corpo e com o mundo ao redor.

Maria Klien — CRP 06/206723Psicóloga