Nutrição

Emagrecer é só uma etapa do tratamento da obesidade

A nutricionista Brunna Boaventura explica por que o tratamento da obesidade não termina quando a balança muda e por que saúde mental e comportamento alimentar continuam sendo parte essencial desse processo

Por Redação Brazil Health , 17/07/2026

4 min de leitura

Emagrecer é só uma etapa do tratamento da obesidade

Os avanços no tratamento da obesidade, alavancados pela cirurgia bariátrica e pelos medicamentos à base de agonistas do GLP-1, mudaram a forma como a doença é tratada e ampliaram as possibilidades de perda de peso para milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, a rapidez com que essas mudanças corporais podem ocorrer contribuiu para fortalecer a ideia de que a redução do peso representa, por si só, o fim do problema.

Na rotina clínica, a perda de peso é apenas uma das etapas do tratamento de uma condição crônica, complexa e multifatorial, que envolve aspectos biológicos, psicológicos, comportamentais e sociais. Embora o corpo responda relativamente rápido às intervenções, o mesmo nem sempre acontece com a relação que a pessoa construiu com a comida, com a própria imagem e com as experiências acumuladas ao longo da vida.

Quando o corpo muda antes do comportamento

Quem conviveu durante anos com a obesidade frequentemente precisou lidar com estigma, preconceito e julgamentos relacionados ao peso. Essas experiências não desaparecem automaticamente após o emagrecimento.

Estudos mostram que muitas pessoas continuam carregando inseguranças, medo de julgamento e dificuldades para reconstruir a própria percepção corporal, mesmo depois de mudanças importantes no peso. Uma pesquisa publicada na Communication Research and Practice identificou que experiências anteriores de estigmatização continuam influenciando a forma como esses indivíduos se percebem e se relacionam com os outros.

Isso ajuda a explicar por que a adaptação a um novo corpo pode exigir tempo e, muitas vezes, acompanhamento psicológico. O emagrecimento modifica o corpo, mas não elimina automaticamente as marcas emocionais deixadas por anos de discriminação.

A obesidade continua exigindo cuidados

A obesidade é reconhecida como uma doença crônica e recidivante. Isso significa que a perda de peso representa um avanço importante, mas não elimina a necessidade de acompanhamento contínuo.

Fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais e comportamentais continuam influenciando o organismo, tornando o risco de recuperação do peso uma preocupação legítima para muitos pacientes. Por isso, o tratamento não deve ser entendido como um período limitado de intervenção, mas como um processo de cuidado de longo prazo.

Essa perspectiva também explica por que a terminologia utilizada pelos profissionais de saúde mudou nos últimos anos. Hoje, recomenda-se falar em "pessoa com obesidade", colocando o indivíduo antes da doença e evitando definições que reduzam sua identidade a uma condição clínica.

O medo do reganho também faz parte do tratamento

Entre os desafios mais frequentes está o receio de recuperar o peso perdido. Em alguns casos, esse medo interfere na relação com a alimentação, favorecendo padrões rígidos de controle, sentimentos de culpa e ansiedade diante de situações comuns do dia a dia.

O processo terapêutico, portanto, não envolve apenas reduzir medidas, mas reconstruir a relação com a comida, aprender a reconhecer sinais de fome e saciedade e desenvolver estratégias para lidar com emoções sem que a alimentação seja a única resposta possível.

Também é comum que pacientes relatem dificuldade para confiar na forma como são percebidos pelos outros. Muitas pessoas passam anos convivendo com preconceitos relacionados ao peso e, mesmo após o emagrecimento, permanecem inseguras quanto à aceitação nos relacionamentos, no ambiente de trabalho e na vida social.

O tratamento não termina quando o peso diminui

Cirurgia bariátrica e medicamentos representam avanços importantes no tratamento da obesidade e ampliaram significativamente as opções terapêuticas disponíveis. No entanto, seus melhores resultados costumam ocorrer quando estão associados ao acompanhamento nutricional, psicológico, médico e à construção de novos hábitos de vida.

O cuidado com a obesidade não pode ser medido apenas pela quantidade de quilos perdidos. Ele também envolve saúde mental, comportamento alimentar, qualidade de vida e a capacidade de sustentar mudanças de forma consistente ao longo do tempo.

Em outras palavras, emagrecer pode representar o início de uma nova etapa do tratamento, e não o seu ponto final.

Brunna Boaventura - CRN10 1843

Nutricionista, pesquisadora e educadora, com pós-doutorado em obesidade vinculado à Harvard Medical School