Por que tanta gente não consegue relaxar nas férias e como identificar sinais de alerta
Pesquisa com viajantes aponta dificuldade de se desconectar e medo de perder mensagens; psiquiatra explica como o estresse prolongado mantém o cérebro em alerta mesmo fora do trabalho.
Por Redação Brazil Health , 01/07/2026
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Férias nem sempre significam descanso. Para uma parcela de pessoas, o período de pausa vem acompanhado de ansiedade, culpa e dificuldade de desacelerar, mesmo longe do escritório. O resultado pode ser a manutenção de hábitos de trabalho durante a viagem, como checar e-mails e responder mensagens, além da sensação de desconforto por “não estar produzindo”.
Um levantamento da Priority Pass, feito com 8.500 entrevistados em 11 países, indica que 35% dos viajantes têm dificuldade para se desconectar da rotina durante as viagens. O estudo também mostra que 73% se preocupam em perder mensagens quando estão longe do celular e que 67% relatam se sentir mais estressados com o aparelho desligado do que ligado.
Segundo a psiquiatra Carolina Hanna Chaim, do Hospital Sírio-Libanês, a explicação passa pelo modo como o organismo se adapta a longos períodos de pressão. “Respostas crônicas ao estresse aumentam a atividade de regiões cerebrais ligadas à vigilância e à antecipação de ameaças. Quando a pessoa entra em férias, o cérebro não muda automaticamente de ritmo”, afirma.
Por que o cérebro demora a “desligar”
De acordo com a médica, quem vive sob alta demanda pode permanecer em estado de alerta mesmo quando as cobranças diminuem. Isso faz com que notificações e mensagens continuem sendo interpretadas como urgências, dificultando a recuperação física e mental.
Outro fator é a relação entre identidade e trabalho. “O trabalho excessivo pode servir como fuga de questões pessoais e emocionais. Quando as férias chegam, essa barreira desaparece e a pessoa se vê obrigada a lidar consigo mesma, o que pode gerar desconforto”, diz Hanna.
A cultura da produtividade também pesa. Para a especialista, a pressão para estar disponível e responder rapidamente contribui para que o descanso seja visto como algo “ilegítimo”, enquanto o cansaço é normalizado.
Quando a dificuldade de relaxar vira sinal de alerta
O principal ponto de atenção, afirma a psiquiatra, é quando a pessoa não consegue controlar o impulso de verificar mensagens de trabalho mesmo sem necessidade real. “Quando alguém não consegue controlar o impulso de verificar e-mails ou mensagens de trabalho sem necessidade, vale a pena investigar o que está acontecendo”, afirma.
Perfis mais ansiosos, perfeccionistas e com alto nível de autocobrança tendem a ter mais dificuldade para aproveitar a pausa. Insônia, irritabilidade, angústia persistente e aumento de comportamentos compulsivos relacionados ao uso de telas, alimentação, álcool ou jogos também merecem atenção.
“Se as férias são acompanhadas por sofrimento emocional intenso ou piora de comportamentos compulsivos, a busca por ajuda profissional pode ser necessária”, diz Hanna.
Estratégias para descansar de verdade
Hanna reforça que não há uma única forma de descanso e que o mais importante é reduzir a pressão por desempenho também nas horas livres. A seguir, algumas medidas que podem ajudar:
- Desacelerar antes das férias, criando pequenas pausas nos dias anteriores, como fazer refeições sem telas.
- Evitar compromissos desnecessários para não transformar a viagem em uma agenda de obrigações.
- Reduzir o consumo de estimulantes, como cafeína, para facilitar um ritmo mais tranquilo.
- Ficar algumas horas longe do celular, mesmo que cause estranhamento no começo.
- Manter o corpo em movimento com atividades moderadas, como caminhadas.
- Investir em práticas prazerosas, como leitura, música, meditação ou massagens.
- Tratar o descanso como necessidade de saúde, e não como falta de produtividade.
Para a especialista, o alívio pode levar um tempo, mas tende a aparecer com a repetição de pausas reais. “O cérebro precisa reaprender que nem toda notificação exige uma resposta imediata”, afirma. “Descansar não é sinal de fraqueza, mas uma condição fundamental para que o organismo se recupere e preserve a saúde mental.”