Cirurgia Oncológica

Medo constante de violência pode afetar saúde mental de mulheres, alerta psicóloga

Especialista diz que viver em estado de alerta contínuo pode levar a ansiedade, insônia e dificuldade de confiar, mesmo quando a agressão não ocorre diretamente com a pessoa.

Por Redação Brazil Health , 24/03/2026

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Medo constante de violência pode afetar saúde mental de mulheres, alerta psicóloga

Evitar certos lugares, mudar rotas, andar mais rápido e vigiar o entorno o tempo todo deixou de ser um cuidado ocasional e passou a fazer parte da rotina de muitas mulheres. Especialistas em saúde mental alertam que esse estado prolongado de alerta, motivado pela violência de gênero, pode provocar sofrimento psicológico duradouro.

O tema ganha peso diante dos números recentes. O Brasil registrou 1.463 feminicídios em 2023, o maior total da série histórica, além de mais de 245 mil casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra mulheres no mesmo ano, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Quando o corpo não desliga do modo de alerta

Para a psicóloga clínica Andrea Beltran, a expectativa constante de que algo ruim possa acontecer consome recursos emocionais que seriam usados para a vida cotidiana, afetando relações, projetos e bem-estar. “A repetição de experiências de violência ou a expectativa constante de que algo possa acontecer coloca muitas mulheres em um estado contínuo de alerta. Esse estado mobiliza energia psíquica que deveria estar disponível para viver, criar e se relacionar, mas passa a ser direcionada para a sobrevivência”, afirma.

Esse tipo de hipervigilância pode se manifestar como ansiedade persistente, irritabilidade, dificuldade para dormir e exaustão emocional. Na prática, o medo deixa de ser uma reação pontual e passa a moldar a forma como a pessoa interpreta situações e se relaciona com o mundo.

Impacto que vai além da experiência individual

Mesmo quem não sofreu agressão diretamente pode sentir efeitos psicológicos ao viver em um ambiente percebido como ameaçador. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1 em cada 3 mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida, o que contribui para um clima social de insegurança.

Na avaliação de Beltran, o medo recorrente pode levar a uma postura defensiva nas interações. “Quando o medo se torna constante, a mulher pode começar a perceber o mundo como um lugar essencialmente ameaçador. O outro deixa de ser alguém com quem se constrói vínculo e passa a ser visto como possível invasor. Isso não é fraqueza, é uma tentativa da psique de se proteger”, diz.

Terapia pode ajudar a reconstruir limites e segurança

A psicóloga ressalta que é preciso considerar o contexto social ao avaliar sintomas como ansiedade e culpa. “O sofrimento psíquico não pode ser separado da realidade vivida. Muitas mulheres chegam ao consultório com ansiedade intensa e culpa por sentir medo, quando na verdade esse medo é uma resposta legítima a um contexto de ameaça”, afirma.

Segundo ela, o acompanhamento psicológico pode ajudar a elaborar vivências de violência e a recuperar a sensação de integridade emocional. “O trabalho terapêutico permite que a mulher nomeie o que sente, reconstrua seus limites e recupere aspectos internos de força, intuição e proteção que ficaram abafados pelo medo”, explica.

Para Beltran, discutir violência contra mulheres também é falar de saúde mental coletiva. “A violência deixa marcas que não são apenas físicas. Ela também fere a psique, a confiança e a relação da mulher com o mundo. A cura não significa apagar o que aconteceu, mas permitir que o medo deixe de ser a única voz dentro dela”, conclui.