Cirurgia Oncológica

Frases como ele nem parece autista ampliam preconceito e isolam famílias, alerta psicóloga

Comentários comuns, mesmo sem intenção de ofender, podem reforçar desinformação sobre o TEA e aumentar o desgaste emocional de quem convive com o autismo no dia a dia.

Por Redação Brazil Health , 10/07/2026

4 min de leitura

Frases como ele nem parece autista ampliam preconceito e isolam famílias, alerta psicóloga

Expressões ditas como “elogio” ou tentativa de conforto podem ter o efeito contrário quando o assunto é autismo: machucam, desinformam e reforçam exclusões. A psicóloga clínica Sirlene Ferreira, que também é mãe neurodivergente, chama atenção para o impacto dessas falas na vida de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e, principalmente, de suas famílias.

No cotidiano, pais e responsáveis costumam acumular uma rotina intensa, com consultas médicas e terapias como fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicoterapia, além das demandas escolares e de casa. Ainda assim, o que mais pesa nem sempre é o diagnóstico. “Muitas vezes, o maior desgaste vem da falta de compreensão da sociedade”, afirma Sirlene.

Ela explica que parte desse problema está na desinformação: comentários feitos sem a intenção de ferir acabam minimizando dificuldades reais, criando julgamentos e alimentando estereótipos.

Quando a frase parece inofensiva, mas exclui

Entre as mais repetidas está: “Mas ele nem parece autista”. Para a psicóloga, a frase parte de um erro básico. “O autismo não tem características físicas que permitam identificar alguém visualmente”, destaca Sirlene.

A ideia de que existiria uma “aparência típica” para pessoas autistas, segundo ela, foi alimentada por representações limitadas em filmes e séries. Além disso, muitas pessoas no espectro aprendem a esconder sinais para serem aceitas socialmente, um esforço conhecido como masking (mascaramento).

Esse mascaramento pode envolver imitar comportamentos esperados, disfarçar desconfortos e reduzir sinais que poderiam gerar rejeição. O custo, porém, pode ser alto. “Quando alguém diz que a pessoa ‘não parece autista’, ignora todo esse esforço invisível”, alerta a especialista, que aponta a exaustão emocional como uma consequência frequente.

Outra frase comum que costuma gerar indignação é: “Hoje em dia todo mundo é um pouco autista”. Sirlene reforça que o TEA não é um traço de personalidade nem uma preferência comportamental. “Gostar de rotina, ser tímido ou preferir ambientes tranquilos não torna alguém autista”, explica.

O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que pode afetar a comunicação, a interação social e a forma como a pessoa processa estímulos do ambiente. Na avaliação da psicóloga, tratar o TEA como algo genérico banaliza a experiência de milhões de pessoas e dificulta o reconhecimento de necessidades concretas, como acessibilidade e inclusão.

Entre as falas mais dolorosas, especialmente para pais e responsáveis, está: “Isso é falta de limites. O que ele precisa é de disciplina”. A especialista ressalta que, para quem observa de fora, uma crise pode parecer “birra”, mas a realidade costuma ser bem diferente.

Nesses casos, pode ocorrer uma sobrecarga sensorial intensa, chamada de meltdown. “A criança não está tentando desafiar os adultos. Ela está em sofrimento real diante de estímulos que o cérebro não consegue processar adequadamente”, afirma Sirlene.

Luzes fortes, sons altos, locais lotados e mudanças inesperadas podem desencadear crises emocionais e físicas. Quando o entorno responde com reprovação e julgamento, o efeito se acumula: muitas famílias passam a evitar espaços públicos por medo de críticas, o que reduz ainda mais oportunidades de convivência e inclusão.

Para a psicóloga, a inclusão não depende apenas de leis, adaptações escolares ou atendimentos especializados. Ela também é construída na convivência cotidiana. “Mais do que conhecimento técnico, a inclusão exige sensibilidade humana”, afirma.

Na prática, isso significa trocar julgamentos por curiosidade respeitosa: perguntar como interagir, reconhecer interesses e habilidades da criança e buscar compreender a situação antes de opinar. “As famílias não precisam de críticas disfarçadas de conselho. Precisam de apoio, compreensão e empatia”, conclui.