Alergia e Imunologia

Quem realmente precisa tomar suplementos

Pesquisa mostra que aproximadamente 75% dos adultos consomem suplementos, embora o uso sem deficiência nutricional tenha benefícios limitados para a maioria das pessoas

Por Redação Brazil Health , 20/07/2026

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Quem realmente precisa tomar suplementos

O consumo de suplementos como vitaminas, minerais e outros compostos nutricionais aumentou nos últimos anos, impulsionado por objetivos como ter mais energia, melhorar o desempenho físico e prevenir doenças. Mas o crescimento do mercado não significa que esses produtos sejam úteis para todo mundo. Especialistas ouvidos pelo Brazil Health reforçam que a suplementação deve ser individualizada e, sempre que possível, orientada por avaliação clínica e exames.

Uma pesquisa publicada em 2024 pelo Council for Responsible Nutrition apontou que cerca de três em cada quatro adultos usam algum suplemento. No Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres também registra avanço no consumo, especialmente entre pessoas interessadas em saúde e bem-estar.

Para o nutricionista Brian Sumner, da Atma Soma, o principal ponto é entender que suplemento não é sinônimo de saúde. “O suplemento pode ser uma ferramenta importante quando existe uma necessidade específica, como uma deficiência identificada, uma demanda aumentada do organismo ou uma estratégia dentro de um plano individualizado. O problema acontece quando ele passa a ser usado como uma tentativa de compensar uma rotina que não sustenta a saúde”, afirma.

A endocrinologista Alessandra Rascovski, PhD e autora do livro Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor, destaca que a decisão de suplementar não deveria vir antes do básico. “Nenhum produto isolado consegue substituir os pilares que sustentam a saúde: alimentação adequada, sono, movimento e equilíbrio metabólico. Antes de pensar em suplementar, é preciso compreender o que o corpo realmente precisa”, diz.

Quando a suplementação pode fazer sentido

O uso pode ser indicado em situações como deficiências nutricionais comprovadas, restrições alimentares, fases da vida com maior demanda de nutrientes ou condições clínicas acompanhadas por profissionais de saúde. Nesses cenários, a avaliação individual costuma definir qual substância usar, em que dose e por quanto tempo, evitando tanto a falta quanto o excesso.

Entre as carências mais investigadas na prática clínica está a de vitamina D. Já a reposição de ferro pode ser necessária quando há deficiência confirmada, especialmente em casos de anemia por falta do mineral. No esporte, alguns compostos podem ter aplicação específica: a creatina, por exemplo, tem evidências mais consistentes para ganho de força quando associada ao treinamento de resistência.

Estudos publicados em 2024 na revista Nutrients, incluindo uma revisão sistemática com meta-análise de 23 pesquisas, observaram que a combinação de creatina e treino de força se associou a aumentos significativos de força muscular em adultos com menos de 50 anos.

Promessa de resultado rápido não é evidência

Sumner aponta que parte da procura por suplementos nasce da expectativa de soluções rápidas. “Existe uma expectativa de que determinados produtos possam entregar mais energia, acelerar resultados ou melhorar a saúde de forma ampla. Mas os efeitos dependem do mecanismo envolvido, do estado nutricional da pessoa e do objetivo daquele uso. Sem esse contexto, a chance de não haver benefício é maior”, diz.

Rascovski ressalta que “mais” não é necessariamente “melhor” quando o assunto é nutriente. “O organismo não funciona melhor simplesmente porque recebe mais nutrientes. Existe uma faixa de equilíbrio. Tanto a deficiência quanto o excesso podem gerar alterações, por isso essa estratégia precisa estar alinhada ao funcionamento daquele indivíduo”, afirma.

Quando o uso vira desperdício

Um erro comum é ligar suplementos a benefícios amplos e garantidos, como emagrecimento, mais disposição ou prevenção generalizada de doenças. A literatura científica sugere que, para pessoas sem deficiência nutricional, a suplementação rotineira tende a trazer benefícios limitados. Uma revisão publicada no Annals of Internal Medicine concluiu que, em adultos sem carências diagnosticadas, o uso habitual de multivitamínicos tem efeito restrito na prevenção de doenças crônicas.

Além do impacto no bolso, o consumo por conta própria pode levar ao excesso de vitaminas e minerais, principalmente em doses altas e por períodos prolongados, com riscos que variam conforme o nutriente e o perfil de saúde da pessoa.

Para Sumner, a alimentação segue como base da estratégia. “Os alimentos entregam uma combinação de fibras, proteínas, vitaminas, minerais e outros componentes que trabalham em conjunto. Um suplemento pode complementar uma estratégia, mas dificilmente reproduz a complexidade de uma alimentação equilibrada”, afirma.

Rascovski conclui que o uso consciente passa por abandonar a ideia de atalho. “A suplementação deve ser vista como parte de um cuidado maior, não como um atalho. O objetivo dessa visão sistêmica é entender o contexto completo da pessoa e utilizar recursos que façam sentido para aquele organismo”, diz.