Nutrição

Pular refeições e jantar tarde pode aumentar risco de diabetes, alertam especialistas

Dados do Vigitel mostram alta de diagnósticos nas capitais; médicos apontam que jejum prolongado, horários irregulares e estresse podem favorecer resistência à insulina.

Por Redação Brazil Health , 03/06/2026

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Pular refeições e jantar tarde pode aumentar risco de diabetes, alertam especialistas

O diabetes tipo 2 avança no Brasil e tem sido associado não apenas ao consumo de açúcar, mas também a hábitos comuns da rotina moderna, como pular refeições, comer em horários irregulares e fazer jantares perto da hora de dormir. É o que alertam especialistas ouvidos em material divulgado pelo CEJAM, organização que gerencia unidades de saúde no estado de São Paulo.

Segundo dados do Vigitel, sistema de monitoramento do Ministério da Saúde, o percentual de adultos com diagnóstico de diabetes passou de 5,5% em 2006 para 12,9% em 2024 nas capitais brasileiras.

Como o jejum prolongado afeta a insulina

De acordo com a endocrinologista Maria Penha, do Hospital Regional de Assis, longos períodos sem comer podem levar o organismo a reagir como se estivesse sob alerta, com liberação de hormônios ligados ao estresse. “Quando a pessoa fica muitas horas sem comer, o corpo entende aquilo como uma situação de alerta. Há liberação de hormônios ligados ao estresse e o organismo passa a trabalhar para preservar energia”, afirma.

Na sequência, uma refeição grande, especialmente rica em carboidratos simples, tende a causar elevação rápida da glicose, exigindo maior produção de insulina pelo pâncreas. “Depois, quando acontece uma refeição muito grande ou rica em carboidratos simples, ocorre um pico importante de glicose no sangue e o pâncreas precisa produzir grandes quantidades de insulina rapidamente”, diz a médica.

Esse padrão repetido ao longo do tempo pode favorecer a resistência à insulina, quando as células passam a responder pior ao hormônio, elevando o risco de diabetes tipo 2.

Jantar tarde e comer no automático entram na conta

A endocrinologista cita como comportamentos frequentes pular o café da manhã, passar o dia com lanches e café, almoçar tarde, substituir refeições por ultraprocessados e jantar próximo do horário de dormir. Estudos também indicam que o corpo tende a metabolizar a glicose com menos eficiência à noite, o que pode dificultar o controle glicêmico quando a maior refeição do dia é feita tarde.

Outro ponto é o “comer automático” – refeições feitas trabalhando ou no celular, sem pausas, o que atrapalha a percepção de fome e saciedade. “O cérebro e o metabolismo precisam de certa previsibilidade. Quando a alimentação acontece sempre de forma desordenada, o corpo permanece em estado constante de adaptação e isso interfere diretamente na ação da insulina”, afirma Maria Penha.

Ela também destaca a influência de sono ruim, estresse crônico, sedentarismo e obesidade. “A obesidade, inclusive, é um dos principais fatores ligados tanto ao desenvolvimento quanto à dificuldade de controle do diabetes tipo 2”, ressalta.

SUS aposta em prevenção e acompanhamento na atenção primária

Além de mudanças individuais, o enfrentamento do diabetes depende da organização da rede de saúde para identificar riscos e acompanhar pacientes. Em unidades administradas pelo CEJAM, a Linha de Cuidado da Saúde da Pessoa Diabética reúne ações de prevenção e monitoramento contínuo.

Para Luciana Carvalho, gerente da URSI Campo Limpo, a atenção primária é central para orientar hábitos e reconhecer fatores de risco. “As equipes orientam sobre a importância de manter uma alimentação equilibrada, respeitando horários das refeições e priorizando alimentos in natura e minimamente processados. Muitas vezes, as pessoas não percebem como hábitos da correria do dia a dia aumentam o risco para doenças crônicas como o diabetes”, afirma.

A estratégia inclui grupos educativos, atendimentos multiprofissionais e ações comunitárias voltadas a alimentação, atividade física, sono e manejo do estresse, além de integração entre UBSs e outros serviços para identificar precocemente obesidade, hipertensão e alterações glicêmicas.

Segundo Luciana, o foco também é tornar o autocuidado viável para cada pessoa, com metas pactuadas entre equipe e usuário. “O cuidado com diabetes não envolve apenas medicamento ou exame. Existe uma dimensão comportamental muito importante, porque estamos falando de uma doença diretamente ligada ao estilo de vida”, diz.

A rede ainda utiliza prontuário eletrônico integrado e busca ativa para localizar pacientes que interromperam o tratamento ou estão com exames em atraso. “O grande objetivo é intervir antes que a doença se instale. Mas, caso o paciente desenvolva a condição, atuamos de forma oportuna e programada visando a qualidade de vida e o bem-estar”, conclui.