Enfermagem

Prevenir perda de memória começa muito antes dos 60: entenda por que

Com o Brasil envelhecendo mais rápido, proteger a memória exige escolhas diárias desde cedo. Hábitos simples e políticas públicas podem aliviar famílias e sistemas de saúde.

Por Redação Brazil Health , 19/01/2026

4 min de leitura

Prevenir perda de memória começa muito antes dos 60: entenda por que

Entre 2010 e 2022, a população brasileira cresceu 6,5%, enquanto o grupo com 60 anos ou mais aumentou 56%, um ritmo nove vezes maior, segundo o Censo 2022 do IBGE. Esse cenário amplia a ocorrência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como hipertensão, diabetes, osteoartrite e osteoporose, além de quadros associados ao envelhecimento, como a demência, impondo desafios crescentes para atender às necessidades dessa população.

Demência em alta: números que preocupam

As projeções são alarmantes: a cada três segundos, alguém no mundo desenvolve demência, segundo a Alzheimer Disease International (ADI). Esses impactos aparecem no Estudo Global da Carga de Doenças (GBD), que estimou mais de 55 milhões de pessoas vivendo com demência em 2019, com projeções que ultrapassam 150 milhões até 2050.

No Brasil, o mesmo estudo apontou cerca de 1,85 milhão de pessoas convivendo com demência, número que pode triplicar nas próximas décadas, e há indícios de subnotificação. Insistir na ideia de que a demência é “inevitável” ou restrita à velhice é abrir mão de uma agenda concreta de prevenção, equidade e justiça social, além de impor desafios à saúde pública e ignorar o impacto sobre redes familiares exauridas e sistemas de saúde já pressionados.

O que o Brasil tem feito até agora

Vale lembrar que o Brasil é signatário do Plano de Ação Global para as Demências (2017-2025), aprovado pela OMS, e avançou com a Lei n. 14.878/2024, que institui a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Alzheimer e outras demências. Além disso, criou a linha de cuidados em demência no Ministério da Saúde e testou o programa iSupport-BR, intervenção on-line da OMS para apoiar cuidadores familiares.

O que você pode fazer hoje para reduzir o risco

Apesar desses avanços, ainda faltam ações efetivas e integradas. Qualquer pessoa pode desenvolver demência, sendo a doença de Alzheimer a forma mais comum, mas há fatores modificáveis que reduzem esse risco. Vale manter a educação ao longo da vida, controlar hipertensão e diabetes, praticar atividade física, corrigir perdas auditiva e visual, evitar tabagismo e álcool, cuidar da saúde mental, garantir sono adequado e manter engajamento social e cultural com dança, música, pintura, universidade da terceira idade, passeios, viagens, encontros com amigos e leitura.

A prevenção da demência se baseia na modificação de fatores de risco que afetam diretamente a reserva cognitiva, a saúde vascular e a integridade dos neurônios. Evidências científicas mostram que estratégias voltadas à educação, ao controle de condições crônicas, à promoção da saúde mental e ao estímulo social e cognitivo ajudam a retardar ou evitar processos de degeneração do cérebro. Aplicadas ao longo do curso de vida, essas intervenções reduzem a vulnerabilidade cerebral e fortalecem mecanismos de proteção, tornando a prevenção não apenas possível, mas essencial para garantir qualidade de vida em uma sociedade que envelhece rapidamente.

A velhice chegará para todos, e a longevidade é uma realidade concreta; basta olhar para nossos avós e pais como testemunhas desse avanço. Mas não é aos 60 anos que você deve começar a se organizar: isso precisa ocorrer muito antes. Prevenir demência não é utopia; é (ou deveria ser) uma escolha consciente, baseada em evidências científicas, que implica conhecer os fatores modificáveis que reduzem o risco de Alzheimer e outras demências e aplicá-los no dia a dia, junto aos saberes da comunidade.

Fica a reflexão: vamos assumir o protagonismo do nosso envelhecimento ou continuar adiando escolhas que definem quem desejamos ser no futuro? O futuro, afinal, já começou. Então, dance, ouça música, contemple a vida, faça pausas e, se puder, inclua um projeto de musculação. Durma bem, dê boas risadas, saia com seus amigos, conheça sua vizinhança, fale sobre envelhecer, cobre ações políticas para o envelhecimento, invista em um curso, aprenda uma nova língua, beba água, tome o primeiro sol da manhã e use filtro solar.

Maria Caroline Waldrigues é enfermeira, mestra em Educação e especialista em Gestão Pública de Saúde e em Envelhecimento Saudável.