Cirurgião Geral

Má digestão: o que realmente ajuda — e o que piora o problema

Refrigerante após a refeição, café com chocolate e comer rápido estão entre os hábitos que mais confundem quem sofre com desconforto digestivo

Por Redação Brazil Health , 30/05/2026

4 min de leitura

Má digestão: o que realmente ajuda — e o que piora o problema

A má digestão é uma queixa extremamente comum nos consultórios de gastroenterologia, afetando milhões de pessoas em todo o Brasil. Caracterizada por desconforto abdominal, sensação de peso e estufamento após as refeições, essa condição — conhecida clinicamente como dispepsia — ainda é cercada por crenças populares que podem atrapalhar a saúde. Reuni neste artigo algumas das dúvidas mais frequentes para esclarecer o que é mito e o que é verdade sobre a digestão.

Refrigerante ajuda na digestão?

Mito. Essa é uma das crenças mais populares — e também uma das mais equivocadas. A sensação de alívio após tomar refrigerante ocorre porque o gás provoca eructação (o famoso arroto), dando uma falsa impressão de esvaziamento. Na prática, as bebidas gaseificadas aumentam a pressão e a acidez dentro do estômago, favorecendo estufamento e desconforto. Além disso, o excesso de açúcar pode retardar ainda mais o esvaziamento gástrico.

Comer rápido faz mal ao estômago?

Verdade. A digestão começa na boca. Mastigar mal os alimentos sobrecarrega o estômago, que precisa trabalhar mais para processar pedaços maiores de comida. Além disso, quem come rápido costuma engolir mais ar, favorecendo gases e inchaço abdominal.

Outro ponto importante é que o cérebro leva cerca de 20 minutos para registrar a saciedade. Por isso, refeições rápidas aumentam o risco de exageros alimentares e desconforto digestivo.

Alimentos gordurosos deixam a digestão mais lenta.

Verdade. Frituras, carnes gordurosas e fast food estão entre os principais vilões da digestão lenta. A gordura é o nutriente que mais demora para ser processado pelo organismo. Enquanto uma refeição leve pode deixar o estômago em aproximadamente duas horas, refeições muito gordurosas prolongam esse tempo e mantêm a sensação de peso por horas.

Uma tacinha de álcool no almoço não faz mal ao estômago.

Mito. O álcool é um agressor direto da mucosa gástrica. Mesmo em pequenas quantidades, pode estimular a produção excessiva de ácido e favorecer inflamações na parede do estômago. Em pessoas com gastrite, refluxo ou azia frequente, a bebida alcoólica pode funcionar como gatilho importante para piora dos sintomas.

Ansiedade também pode afetar a digestão

Verdade. O sistema digestivo possui forte conexão com o sistema nervoso — tanto que o intestino é frequentemente chamado de “segundo cérebro”. Estresse e ansiedade alteram a motilidade gastrointestinal, aumentam a sensibilidade à dor e podem desencadear sintomas como estufamento, queimação e desconforto abdominal.

Muitas vezes, o problema não está apenas na alimentação, mas também no estado emocional. Hoje sabemos que intestino e cérebro mantêm uma comunicação constante, influenciando diretamente o funcionamento do organismo.

Cafezinho com chocolate ajuda a digerir.

Mito. Embora seja uma combinação culturalmente associada ao prazer após as refeições, ela pode piorar sintomas digestivos em pessoas predispostas. Chocolate e café contêm substâncias que relaxam o esfíncter esofágico — estrutura responsável por impedir o retorno do ácido ao esôfago — além de retardarem o esvaziamento do estômago.

O que realmente ajuda na digestão

Algumas medidas simples podem melhorar significativamente o funcionamento digestivo:

• mastigar bem os alimentos e comer sem pressa• evitar deitar logo após as refeições• reduzir porções muito grandes• fazer caminhadas leves após comer• identificar alimentos que funcionam como gatilho individual• controlar o estresse com atividade física, relaxamento ou meditação

Se a má digestão acontece com frequência, ela não deve ser considerada normal. Sintomas persistentes podem estar relacionados a refluxo, gastrite, intolerâncias alimentares ou outras condições que precisam de investigação médica.

Ricardo Purchio Galletti - CRM-SP 210301 | RQE: 128585 // RQE: 147545Cirurgião Geral e do Aparelho Digestivo

Referências

[1] QNESC. A Química do Refrigerante.

[2] Jornal da USP. Comer rápido ou mastigar pouco pode ser prejudicial.

[3] MedlinePlus. Gastric Emptying Tests.

[4] Mincis, M. Etanol e o trato gastrointestinal.

[5] Silva, W. S. Dispepsia Funcional: um estudo epidemiológico.

[6] RSD Journal. Impacto da alimentação na saúde gastrointestinal.