Psicologia

Sociedade hiperconectada convive com aumento do isolamento emocional

Por Dra. Dorli Kamkhagi , 04/06/2026

4 min de leitura

Sociedade hiperconectada convive com aumento do isolamento emocional

O alerta sobre a solidão cresce no mundo, e a psicóloga Dra. Dorli Kamkhagi explica por que tanta conexão digital pode virar afastamento emocional e risco à saúde.

O tema da solidão na sociedade pós-contemporânea tem se tornado cada vez mais preocupante. Vivemos uma era marcada por uma enorme conexão digital e midiática, mas, ao mesmo tempo, por um distanciamento social crescente. Nunca estivemos tão conectados pelas telas e, paradoxalmente, tão afastados emocionalmente.

O isolamento social passou a chamar a atenção de órgãos internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), que já trata a solidão como uma questão de importância global. Especialistas perceberam que esse afastamento das pessoas dos vínculos sociais, afetivos e dos espaços que fazem parte de sua identidade pode trazer sérios impactos para a saúde física e mental.

Embora a solidão possa estar associada a quadros depressivos, lutos, aposentadoria ou perdas de papéis sociais, estudos recentes mostram que ela também pode ser um importante fator de adoecimento. Após a pandemia, muitos países observaram um aumento significativo do isolamento social e da dificuldade de reinserção das pessoas em grupos e atividades coletivas.

A partir dessa percepção, países da Europa e os Estados Unidos passaram a criar políticas públicas específicas voltadas ao enfrentamento da solidão. Pesquisas demonstram que a falta de conexões sociais e afetivas pode aumentar os índices de sofrimento psíquico e até contribuir para o crescimento dos casos de suicídio.

Um dos pesquisadores citados nesses estudos, o cirurgião-geral Vivek Murthy destacou que aproximadamente um bilhão de pessoas no mundo convivem atualmente com problemas relacionados à saúde mental, o que representa uma em cada oito pessoas.

O impacto em idosos e o sentimento de invisibilidade

Na prática clínica e em estudos realizados ao longo de 20 anos no IPq da FMUSP, foi possível observar o impacto profundo da solidão, especialmente em pessoas acima dos 60 anos. Muitos idosos relatam a sensação de invisibilidade social, como se deixassem de ocupar um lugar no mundo após determinadas perdas afetivas, familiares ou sociais.

Essa vivência de exclusão pode favorecer pensamentos relacionados à morte, justamente porque essas pessoas deixam de se sentir pertencentes a grupos, relações e espaços de convivência.

Diversos estudos também associam o isolamento social ao aumento de adoecimentos psíquicos, emocionais e até físicos. Entre os principais riscos estão problemas cardiovasculares, hipertensão, AVC, declínio cognitivo e aumento das chances de desenvolvimento de demências.

Os impactos são ainda mais intensos entre idosos que enfrentam perdas importantes, como o luto por pessoas amadas, o afastamento familiar ou a redução da vida social após a aposentadoria.

Por que nada substitui o contato real

Por isso, além dos cuidados médicos, é fundamental um acompanhamento terapêutico que favoreça a reinserção social, o fortalecimento dos vínculos afetivos e a reconstrução do sentimento de pertencimento.

Um dos pontos mais discutidos recentemente durante o SP Week Innovation foi justamente o impacto da desconexão emocional na sociedade moderna. O psicólogo e pesquisador David Goleman, autor do conceito de inteligência emocional, destacou que, embora a modernidade ofereça inúmeros recursos tecnológicos de conexão, nada substitui os vínculos afetivos reais.

Nenhuma conexão virtual é mais forte do que o abraço, o afeto, o beijo e o amor.

Dra. Dorli Kamkhagi – CRP 1551

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Head Nacional Brazil Health