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Sofrer não é crime: o perigo de diagnosticar a vida

Especialista alerta para a moda de transformar emoções em doença e para o uso exagerado de remédios, defendendo acolhimento, autoconhecimento e terapia responsável.

Por Redação Brazil Health , 06/12/2025

4 min de leitura

Sofrer não é crime: o perigo de diagnosticar a vida

Não há dúvidas de que vivemos uma era em que os transtornos mentais, as neuroses e o adoecimento emocional só aumentam, evidenciando o sofrimento humano diante dos desafios. Estamos falando mais sobre terapia, autocuidado e saúde mental, porém esse movimento ainda é tímido e cercado de desconfianças.

O risco de medicar sentimentos

Além disso, não podemos fechar os olhos para o consumo excessivo de medicamentos controlados para tratar dores emocionais, seja por adultos ou até por crianças. Ou seja, tudo isso aponta para uma tendência triste, real e cada vez mais escancarada: a patologização do viver.

As emoções e os sentimentos, naturais a todo ser humano, passam a ser tratados como distúrbios. O 'sofrer' vira quase um crime, uma negação. Quando, na verdade, sofrer faz parte do curso natural da vida. Precisamos dos desafios e das dificuldades para impulsionar metas e o autoconhecimento.

Sofrer é parte da vida

Lidar com a dor é um desafio para todos. Por isso, é fundamental encarar o sofrimento como um aspecto natural da vida. Claro que alguns terão mais facilidade para vivenciar uma dor, seja ela qual for, enquanto outros terão um pouco mais de dificuldade. Afinal, nossas experiências de vida ditam, e muito, nossa capacidade de tolerância.

Saber como olhar para essa dor e acolhê-la é a chave para o equilíbrio físico e mental, já que sofrimento não é sinônimo de doença. Rotular sentimentos e emoções sem o cuidado necessário é uma grande armadilha, motivo pelo qual a terapia é imprescindível no processo de cura, pois permite e promove a escuta ativa, o acolhimento da dor e a expressão genuína dos sentimentos.

Esse desvio de comportamento e de pensamento contribui para reduzir a naturalização de emoções legítimas, como tristeza, alegria, raiva, dor, angústia e cansaço. Com isso, a busca por alívios imediatos também se reflete no aumento do consumo de medicamentos especiais que, em muitos casos, gera impactos expressivos, como dependência, sem indicação adequada e sem complementação terapêutica.

Além disso, muitos remédios vêm se tornando ícones de uma sociedade adoecida psiquicamente. São milhões de caixas consumidas para dormir, acordar, emagrecer, sorrir, diminuir a ansiedade, melhorar o humor, aumentar a libido, entre outros objetivos.

Alerta sobre uso de remédios em crianças e jovens

E o dado mais assustador: o número de crianças e jovens fazendo uso regular e contínuo de medicações psiquiátricas triplicou nos últimos dois anos. No entanto, o objetivo não é transformar os medicamentos em vilões. Pelo contrário, eles são muito importantes no sucesso do combate às doenças. O problema é o excesso e a automedicação.

Portanto, falta leveza e resiliência para encarar os desafios cotidianos. Nossos limites precisam ser respeitados, assim como nossas falhas e fraquezas devem ser reconhecidas.

É preciso encarar de frente os sentimentos e emoções antes de lançar mão de rótulos diagnósticos diversos como resposta à dor. Além disso, não podemos esquecer que a mente reflete no corpo tudo aquilo que não está bem elaborado.

O corpo serve como alerta às dores psíquicas que podem ser trabalhadas por meio do autoconhecimento e de um olhar mais acolhedor para identificar gatilhos. Enfim, esse é o caminho para evitar o aprisionamento mental e físico que dopa, rotula e limita as relações sociais e as rotinas diárias.

Dra. Andréa Ladislau

Psicanalista