O estresse que você normaliza pode afetar seu coração
Pressão, ansiedade e sobrecarga alteram o funcionamento do corpo e aumentam o risco de doenças cardíacas, muitas vezes sem sinais claros
Por Redação Brazil Health , 08/05/2026
3 min de leitura
Historicamente, a medicina tratou o coração e a mente como compartimentos estanques. No entanto, o que a ciência moderna e as diretrizes mais recentes da Sociedade Europeia de Cardiologia nos mostram é que existe uma via de mão dupla entre as emoções e o sistema cardiovascular. No cenário atual, especialmente em meses como abril, quando a rotina volta com força total e as demandas profissionais se acumulam, essa conexão torna-se um ponto crítico de saúde pública.
O que o estresse faz no corpo (e no coração)
O estresse crônico não é apenas um estado de espírito; é um gatilho biológico. Quando vivemos em estado de alerta constante, seja pela pressão laboral ou pelo uso excessivo de telas que nos mantêm em vigília sensorial, nosso corpo libera hormônios que elevam a pressão arterial e podem desencadear arritmias. Mais do que isso, a saúde mental hoje é considerada um fator de risco independente: pessoas com depressão apresentam o dobro de chances de desenvolver doenças cardíacas.
Essa relação bidirecional significa que, da mesma forma que o estresse pode causar um infarto, um evento cardiovascular grave pode desencadear sofrimento psíquico significativo. O paciente que sofre um evento cardíaco muitas vezes enfrenta o medo, a ansiedade e a necessidade de uma “polifarmácia” (uso de muitos medicamentos), o que pode reduzir a adesão ao tratamento se a saúde mental não for cuidada simultaneamente.
Quando a emoção imita um infarto
Um exemplo fascinante dessa ligação é a chamada “Síndrome do Coração Partido” (cardiomiopatia de Takotsubo). Nela, um estressor emocional intenso é capaz de precipitar um evento cardiovascular agudo, mimetizando um infarto. Embora menos comum do que o estresse do dia a dia, ela ilustra perfeitamente como a dor da mente se torna a dor do corpo.
Burnout, telas e as bandeiras vermelhas
No dia a dia, o perigo reside na normalização do esgotamento. O burnout, por exemplo, vai além do cansaço; ele se manifesta por meio do cinismo, da queda de produtividade e de uma sensação de despersonalização, em que o indivíduo sente que está apenas executando tarefas no “piloto automático”. Frequentemente, esse quadro é agravado pela tecnologia. O uso problemático de smartphones e a necessidade de estímulo constante (curtidas, notificações) impedem o relaxamento cerebral e prejudicam a higiene do sono.
Para mudar esse paradigma, o cuidado cardiovascular de qualidade exige hoje uma atenção sistemática à saúde mental. É preciso que o médico e o paciente estejam atentos às “bandeiras vermelhas”: irritabilidade constante, insônia, uso de substâncias ou álcool como fuga e a incapacidade de sentir prazer em momentos de lazer.
Cuidar do coração em 2026 exige, inevitavelmente, cuidar da mente. Regular o tempo de tela, estabelecer limites para o trabalho e buscar ajuda profissional ao primeiro sinal de que o “estresse normal” se tornou um companheiro constante não são apenas medidas de bem-estar, mas estratégias vitais de sobrevivência.
Dr. Marcos Capitanio Michelin - CRM 30363 e RQE 25091
Cardiologista
Professor de Pós-graduação da Afya Educação Médica de Porto Alegre
Dr. Daniel Luccas Arenas - CRM 44215 | RQE 38321/40095
Psiquiatra
Professores de Pós-graduação da Afya Educação Médica de Porto Alegre
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