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Aceita Que Dói Menos: O Psiquiatra Que Ensina a Parar de Brigar com a Realidade

Em novo livro, o médico Isaac Efraim propõe um caminho radical e libertador para lidar com a dor emocional: aceitar o que é, em vez de insistir no que deveria ser.

Por Redação Brazil Health , 10/09/2025

5 min de leitura

Aceita Que Dói Menos: O Psiquiatra Que Ensina a Parar de Brigar com a Realidade

Há mais de 40 anos atendendo pacientes em seu consultório, o psiquiatra Isaac Efraim desenvolveu uma tese poderosa — e, à primeira vista, desconfortável: o sofrimento não está nas circunstâncias, mas na nossa recusa em aceitá-las. Essa percepção deu origem ao livro Aceita que dói menos, em que ele reúne aprendizados clínicos e existenciais sobre como a mente humana cria armadilhas, alimenta o sofrimento e impede a transformação. Nesta entrevista, concedida em tom informal e direto, Dr. Isaac fala sobre culpa, redes sociais, ansiedade crônica e os limites do uso de medicamentos. E explica por que a aceitação é o primeiro passo para a liberdade emocional.

De onde nasceu o conceito “aceita que dói menos”?

Foi uma percepção que tive ao longo de décadas de consultório. Quando o paciente, em meio à dor, consegue aceitar aquilo que está vivendo — seja a perda de alguém, uma separação, um diagnóstico — o sofrimento, quase imediatamente, fica mais suportável. Não é um conceito de autoajuda, mas uma constatação clínica: o sofrimento psíquico diminui quando a realidade é acolhida, não negada.

Por que negar a dor tende a agravar os transtornos emocionais?

Porque nossa mente foi “projetada” para tentar evitar o sofrimento a qualquer custo. Ela cria uma expectativa de como as coisas deveriam ser, e entra em conflito com o que são. Essa diferença entre o real e o idealizado é a essência do sofrimento emocional. Quando você aceita o que é, o que “deveria ser” perde força — e a dor diminui.

Quais são os mecanismos mentais mais comuns que mantêm as pessoas presas ao sofrimento?

O mais recorrente é a negação da vida como ela se apresenta. A vontade de que ela seja diferente, e a luta constante contra isso. Outro mecanismo é a culpa. Achamos que deveríamos ter agido de outra forma, mas esquecemos que nosso comportamento é fruto de sentimentos e condicionamentos. A culpa drena nossa energia e nos leva aos piores estados emocionais.

A ansiedade parece ter se tornado uma epidemia. Quando ela deixa de ser um traço normal e vira doença?

A ansiedade é parte da condição humana. Quem tem mente, tem ansiedade. O problema começa quando ela traz prejuízos concretos: afeta o trabalho, as relações, a autoestima. Não se trata de eliminar a ansiedade, mas de aprender a conviver com ela. E adivinha? Aceitá-la dói menos.

Como transformar sofrimento em aprendizado, como o senhor propõe no livro?

O primeiro passo é prestar atenção. Observar, sem julgar. O segundo é aceitar o que está acontecendo, e o terceiro é ajustar a mente para que ela se alinhe com a realidade, não com fantasias ou desejos irrealizáveis.

Qual o impacto das redes sociais na saúde mental?

Gigantesco. Vivemos uma ditadura da imagem, da aparência, da comparação. Isso alimenta a insegurança, a superficialidade e a ilusão de poder. As redes sociais projetam o que há de mais tóxico na mente humana — e estamos todos hipnotizados por elas.

O Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS. O que explica isso?

Nossa desigualdade social, a sensação constante de risco, a ausência de amparo real do Estado — tudo isso cria um caldo de cultura para a ansiedade. Vivemos em alerta permanente. Isso cobra um preço alto.

É possível superar o sofrimento sem recorrer a medicamentos?

Depende. Se a pessoa consegue aplicar as práticas de percepção, aceitação e compreensão, muitas vezes é possível. Mas quando os padrões mentais estão muito enraizados ou já alteraram a química cerebral, a medicação pode ser essencial. Antidepressivos e ansiolíticos, bem usados, ajudam a reorganizar a percepção e quebrar ciclos viciosos.

Tecnologias como inteligência artificial, realidade virtual e psicodélicos vão revolucionar o tratamento da mente?

Acredito que sim, em parte. A inteligência artificial pode apoiar muitas áreas da medicina. E os psicodélicos, usados com critério, têm mostrado resultados promissores em casos de depressão e até de psicose. Mas o problema maior hoje ainda são as redes sociais. Elas distorcem nossa percepção e adoecem a mente coletiva.

Se pudesse dar um único conselho para alguém que sente que “não aguenta mais”, qual seria?

Aceite a possibilidade de que o ruim aconteça. Pare de lutar o tempo todo contra isso. A mente vai continuar ameaçando, mas você pode deixar essas ameaças passarem sem entrar em pânico. No fundo, quase sempre, o que parece insuportável é só uma miragem da mente.

Alexandre Hercules, editor-chefe da Brazil Health (www.brazilhealth.com)