Zumbido no ouvido nem sempre é um problema apenas de audição
A otoneurologista Dra. Tatiana Lima discute o que já se sabe sobre os mecanismos envolvidos no zumbido e como esse conhecimento influencia o tratamento dos pacientes
Por Tatiana Lima , 17/07/2026
4 min de leitura
Se você sofre com zumbido, provavelmente já ouviu a frase: "não há nada a ser feito, tente aprender a conviver com isso". Durante anos, essa foi a resposta padrão em muitos consultórios. Como médica otoneurologista, entendo a frustração que esse diagnóstico, ou a falta dele gera. No entanto, hoje trago uma notícia diferente: a ciência evoluiu e já conseguimos entender o que acontece no seu cérebro, e o tratamento está, sim, evoluindo e trazendo algumas respostas.
Para entender uma das principais causas do zumbido, precisamos tirar o foco apenas do ouvido e olhar para o "maestro" da nossa audição: o cérebro. Pense no seu sistema auditivo como um rádio que precisa captar sinais do ambiente. Quando existe uma perda auditiva, mesmo que pequena, o fluxo de informações que chega ao cérebro diminui.
O que o cérebro faz diante dessa "escassez"? Ele entra em um modo de compensação, aumentando a sensibilidade dos seus circuitos auditivos, tornando-se hiperexcitável, em uma tentativa de captar qualquer som. É como se, em um ambiente silencioso, o cérebro "aumentasse o volume" ao máximo para tentar ouvir algo. Esse ganho artificial nos circuitos gera a percepção de um ruído constante — o zumbido. Não é algo que "está na sua cabeça" no sentido figurado; é um fenômeno de plasticidade neural mal adaptativa. O cérebro está tentando se ajustar a uma nova realidade, mas o resultado é um ruído que ninguém mais ouve.
O que mudou no tratamento nos últimos anos
A boa notícia é que, ao compreender essa base neurológica, os tratamentos acabaram evoluindo. Hoje, não buscamos apenas mascarar o som com um ruído branco, mas, sim, "ensinar" o cérebro a reduzir essa hiperatividade.
Estamos integrando novas ferramentas, e as pesquisas têm se aprofundado em novas estratégias:
- Neuromodulação: são técnicas que utilizam estímulos para modular a atividade das redes neurais, ajudando a "acalmar" as áreas auditivas que estão trabalhando em excesso;
- Terapias bimodais: trata-se de uma abordagem inovadora que combina estímulos auditivos com estímulos sensoriais em outras partes do corpo. O objetivo é redesenhar a forma como o cérebro processa o som, estimulando-o a focar em novas vias e diminuindo a importância do zumbido;
- Reabilitação personalizada: o uso de tecnologia de ponta em aparelhos auditivos, quando necessário, para devolver o estímulo sonoro real que o cérebro precisa, permitindo que ele "baixe o volume" dessa compensação interna.
Como evitar promessas fáceis e buscar ajuda certa
Vivemos em um tempo em que a tecnologia avança rapidamente, e as promessas de "cura milagrosa" nas redes sociais são constantes. Como especialista, meu papel é ser sua aliada na distinção entre o que é evidência científica e o que é apenas expectativa comercial.
Abordagens experimentais sem comprovação clínica podem não apenas ser ineficazes, como também causar frustração e perda de tempo. O tratamento do zumbido exige um acompanhamento sério e constante. Precisamos investigar comorbidades: como está sua ansiedade? Como está sua saúde metabólica? O tratamento é um plano de ação, não uma pílula única. O acompanhamento próximo, com profissionais que realmente entendem sobre o tema, como os otorrinolaringologistas especialistas em Otoneurologia, faz toda a diferença para o sucesso.
O zumbido não precisa ser o protagonista da sua vida. Quando começamos a tratar as causas e a reeducar os circuitos cerebrais, a percepção do sintoma diminui e, muitas vezes, a qualidade de vida é retomada com plenitude.
Não aceite a resignação como resposta definitiva. A ciência avançou e, hoje, temos ferramentas e grandes centros de atendimento especializado, capazes de olhar para o seu zumbido com a complexidade que ele exige e o cuidado que você merece. Vamos juntos, passo a passo, reescrever essa história e devolver a leveza aos seus dias.
Dra. Tatiana Lima - CRM 233.556 | RQE 104.558
Otorrinolaringologista especialista em Otoneurologia e líder do Centro de Zumbido do Hospital CEMA
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