O lado oculto da Copa: por que tantos craques se machucam em campo?
O ortopedista Dr. Dalton Roberto de Melo Franco Filho explica as lesões mais comuns na Copa e por que elas aparecem quando o torcedor menos espera.
Por Dalton Roberto de Melo Franco Filho , 17/07/2026
4 min de leitura
A cada Copa do Mundo, milhões de torcedores acompanham lances espetaculares, gols históricos e jogadas que desafiam os limites do corpo humano. Mas por trás de cada partida existe uma realidade pouco comentada: o enorme desgaste físico sofrido pelos atletas. Em apenas 90 minutos, um jogador pode percorrer mais de 12 quilômetros, realizar dezenas de arrancadas, mudanças bruscas de direção, saltos, choques e chutes em alta velocidade. Não é surpresa que o futebol seja um dos esportes com maior incidência de lesões ortopédicas.
A lesão mais temida pelos jogadores é a ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA), localizado no joelho. Curiosamente, em muitos casos, ela acontece sem qualquer contato com outro atleta. Um simples giro sobre o pé apoiado ou uma mudança rápida de direção pode ser suficiente para romper o ligamento. Atualmente, a recuperação costuma levar até doze meses, exigindo cirurgia e um intenso programa de reabilitação para que o atleta retorne ao alto rendimento.
Outra curiosidade é que cerca de dois terços das lesões no futebol acometem os membros inferiores. As distensões musculares da coxa, especialmente dos músculos posteriores e do quadríceps, lideram as estatísticas. Em competições curtas, como a Copa do Mundo, em que há pouco tempo para recuperação entre as partidas, o risco dessas lesões aumenta significativamente devido ao acúmulo de fadiga muscular.
Os tornozelos também sofrem bastante. Entorses são extremamente frequentes e, embora muitas pareçam simples, algumas podem comprometer os ligamentos e até provocar lesões na cartilagem da articulação. O tratamento precoce é fundamental para evitar instabilidade crônica e novos episódios ao longo da carreira.
Nem sempre é choque: quando o próprio movimento causa o problema
Um aspecto que chama atenção é que nem toda lesão acontece durante uma dividida. Estudos mostram que grande parte das rupturas ligamentares ocorre em movimentos naturais do jogo, como desacelerar, aterrissar após um salto ou realizar uma mudança brusca de direção. Isso demonstra como a biomecânica, o controle muscular e o preparo físico são tão importantes quanto a força propriamente dita.
A tecnologia também passou a ser uma grande aliada da medicina esportiva. Atualmente, equipes utilizam GPS, sensores de movimento e inteligência artificial para monitorar a carga física dos atletas em tempo real. Essas ferramentas permitem identificar sinais precoces de fadiga e ajudam a reduzir o risco de lesões antes mesmo que elas aconteçam.
O perigo mora no fim: por que o segundo tempo machuca mais
Existe ainda um dado curioso: a maioria das lesões ocorre no segundo tempo das partidas, especialmente nos últimos 20 minutos. O motivo é simples: à medida que o cansaço aumenta, diminui a capacidade de reação muscular e de estabilização das articulações, favorecendo movimentos inadequados e a sobrecarga dos tecidos.
Apesar da evolução da medicina esportiva, da preparação física e dos métodos de prevenção, ainda é impossível eliminar completamente o risco de lesões no futebol. O esporte exige movimentos explosivos, contato físico e decisões em frações de segundo, colocando constantemente músculos, tendões, ligamentos e articulações sob extremo estresse.
Enquanto o torcedor comemora um gol ou lamenta uma derrota, existe uma equipe multidisciplinar formada por ortopedistas, fisioterapeutas, preparadores físicos e médicos do esporte trabalhando silenciosamente para manter os atletas em campo. Em uma Copa do Mundo, vencer não depende apenas do talento com a bola nos pés, mas também da capacidade do corpo de suportar uma das competições mais exigentes do planeta.
Dr. Dalton Roberto de Melo Franco Filho - CRM-SP 167384
Ortopedista e Traumatologista
Especialista em cirurgia de joelho
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