Tratamento

Vergonha e tabu atrasam tratamento de vícios e comportamentos compulsivos

Especialista explica como o medo de julgamento aprofunda o isolamento e dificulta o diagnóstico; acolhimento familiar e atendimento especializado aumentam as chances de recuperação

Por Redação Brazil Health , 08/01/2026

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Vergonha e tabu atrasam tratamento de vícios e comportamentos compulsivos

A vergonha tem impedido milhares de brasileiros de buscar ajuda para lidar com vícios e comportamentos compulsivos – de apostas a pornografia, compras impulsivas e jogos digitais. O silêncio prolonga o problema, amplia o isolamento e adia o início do tratamento, alerta o psicólogo clínico Leonardo Teixeira, especializado em compulsividade.

Segundo o profissional, a vergonha cria uma segunda camada de sofrimento. “Nem sempre os pacientes chegam porque perderam dinheiro ou porque a vida social desmoronou. Eles chegam porque não aguentam mais ter vergonha. A vergonha paralisa, e quando paralisa, o problema ganha força”, afirma.

Como a vergonha alimenta o ciclo

Para Teixeira, o tabu persiste porque muitos ainda enxergam compulsões como falha de caráter, e não como questão de saúde mental. Essa leitura moralizante empurra o problema para a clandestinidade e dificulta a busca por ajuda. “Esse tipo de julgamento faz a pessoa esconder o problema, e quando ela esconde, ela deixa o vício crescer no escuro”, diz.

O resultado costuma ser um ciclo repetitivo – recaída, culpa, promessa de mudança, nova recaída – que alimenta a sensação de impotência. Relatos frequentes incluem dormir mal, esconder comportamentos, mentir sobre gastos e inventar desculpas para se isolar. Quanto mais tempo a pessoa tenta “resolver sozinha”, mais a compulsão se aprofunda.

Família pode ajudar – ou agravar

A reação de parentes e parceiros influencia diretamente o caminho até o tratamento. Irritação, broncas e preconceito tendem a aumentar a culpa e o fechamento. “Quando a família reage com julgamento, a pessoa se fecha ainda mais. Ninguém se abre para quem acusa. Quando há acolhimento, a motivação para buscar ajuda aumenta”, avalia o psicólogo.

O medo de ser rotulado também compromete a prevenção. Muitas pessoas evitam buscar informação por receio de se identificar com os sintomas ou admitir perda de controle. “Quando a pessoa aceita que não está conseguindo parar, ela dá o primeiro passo para retomar o controle. O problema é que a vergonha adia essa consciência”, afirma.

Caminhos para o cuidado

Romper o tabu, aponta Teixeira, passa por retirar o peso moral e explicar o problema em termos de saúde – com base neuroquímica e emocional. Informação acessível, linguagem direta e acolhimento são pilares desse processo. “Vergonha não cura nada. Informação cura. Acolhimento cura. Vício não é sobre caráter, é sobre sofrimento emocional”, resume.

Entre as opções de cuidado estão psicoterapia especializada, serviços do SUS como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), grupos de apoio, acompanhamento médico e estratégias de prevenção de recaídas. A orientação é procurar ajuda o quanto antes – intervenções precoces tornam a recuperação mais provável.

Teixeira reforça que pedir ajuda é um gesto de coragem e um marco no tratamento. “Quando a pessoa finalmente fala sobre o problema, ela percebe que não está sozinha. O tabu existe para ser rompido. E quando isso acontece, o tratamento começa de verdade”, conclui.