Saúde mental no trabalho: Brasil bate recorde de afastamentos e acende alerta
Licenças por ansiedade, depressão e estresse somaram 472 mil em 2024, alta de 68% em um ano. Especialistas pedem ação de empresas e governo para frear a crise.
Por Redação Brazil Health , 26/12/2025
4 min de leitura
Ansiedade, burnout e esgotamento emocional impulsionam licenças médicas e colocam a saúde mental no centro das discussões corporativas.
A saúde mental no trabalho deixou de ser apenas um tema de bem-estar corporativo para se transformar em uma questão estratégica e econômica dentro das empresas. O aumento dos afastamentos ligados a transtornos emocionais vem acendendo um alerta no Brasil e reforçando a pressão por ambientes profissionais mais saudáveis.
Ansiedade, burnout, depressão e esgotamento emocional aparecem cada vez mais entre os principais motivos de licenças médicas no país, especialmente após mudanças profundas nas relações de trabalho nos últimos anos.
Segundo a médica especialista em saúde ocupacional Isabela Dupin, o problema deixou de atingir apenas profissionais em situações extremas. “Hoje vemos quadros de sofrimento mental em diferentes níveis hierárquicos e faixas etárias. Existe uma combinação de pressão constante, excesso de estímulos, dificuldade de desconexão e insegurança emocional que impacta diretamente a saúde dos trabalhadores”, explica.
A discussão ganhou ainda mais força em 2026 com a ampliação do debate sobre responsabilidade das empresas na prevenção de riscos psicossociais e promoção da saúde mental no ambiente corporativo.
Burnout e ansiedade estão entre os principais motivos de afastamento
Entre os sintomas mais relatados pelos trabalhadores estão:
• cansaço extremo;
• dificuldade de concentração;
• irritabilidade;
• insônia;
• crises de ansiedade;
• sensação constante de exaustão;
• perda de produtividade;
• desmotivação.
“Muita gente demora para perceber que o corpo e a mente já entraram em um processo de adoecimento. O problema é que, quando os sinais são ignorados, o quadro pode evoluir para afastamentos prolongados”, afirma Isabela Dupin.
Especialistas alertam que o burnout não surge de forma repentina. Em geral, o processo é progressivo e associado a sobrecarga crônica, metas excessivas, jornadas prolongadas e dificuldade de recuperação emocional.
A dificuldade de se desconectar agravou o cenário
O avanço do trabalho remoto e híbrido trouxe benefícios importantes, mas também aumentou a sensação de disponibilidade permanente. Mensagens fora do expediente, excesso de reuniões virtuais e dificuldade de separar vida pessoal e trabalho passaram a fazer parte da rotina de muitos profissionais.
Além disso, especialistas observam impacto crescente de fatores como:
• hiperconectividade;
• excesso de telas;
• insegurança econômica;
• cobrança por alta performance;
• medo de substituição tecnológica;
• isolamento social.
“A mente humana não foi preparada para permanecer em estado contínuo de alerta e produtividade. O excesso de estímulos sem pausas adequadas favorece esgotamento físico e emocional”, explica a médica.
Empresas passaram a olhar o problema de forma diferente
Nos últimos anos, o aumento dos afastamentos e dos custos relacionados à saúde mental levou muitas empresas a rever políticas internas e programas de suporte emocional.
O tema ganhou ainda mais relevância após discussões sobre atualização das normas relacionadas à saúde ocupacional e aos riscos psicossociais dentro das organizações.
Hoje, especialistas defendem medidas como:
• incentivo ao equilíbrio entre vida pessoal e trabalho;
• políticas de desconexão;
• apoio psicológico;
• liderança mais preparada;
• combate ao assédio;
• ambientes emocionalmente seguros.
“Não basta apenas oferecer palestras ou campanhas pontuais. A saúde mental depende da cultura organizacional e da forma como as relações de trabalho acontecem no dia a dia”, afirma Isabela Dupin.
Quando procurar ajuda
Os especialistas alertam que sintomas persistentes não devem ser ignorados, principalmente quando começam a afetar produtividade, sono, relacionamentos e qualidade de vida.
Entre os sinais de alerta estão:
• exaustão constante;
• crises frequentes de ansiedade;
• dificuldade de dormir;
• alterações importantes de humor;
• perda de interesse pelas atividades;
• sensação de incapacidade;
• sintomas físicos relacionados ao estresse.
“Afastamento não deve ser encarado como fraqueza. Em muitos casos, ele acontece justamente porque o organismo chegou ao limite”, conclui a especialista.
Com o avanço das discussões sobre saúde mental nas empresas, o tema deve permanecer no centro das transformações do mercado de trabalho nos próximos anos — não apenas como questão de saúde, mas também de produtividade, sustentabilidade humana e qualidade das relações profissionais.
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