Saúde Mental

Racismo agrava crise de saúde mental e vício em telas entre jovens negros

Levantamentos de 2024 ligam uso excessivo de internet a ansiedade e piora do sono. Desigualdade e discriminação ampliam sintomas e dificultam o acesso a cuidado, alertam especialistas.

Por Redação Brazil Health , 21/11/2025

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Racismo agrava crise de saúde mental e vício em telas entre jovens negros

A escalada de ansiedade, depressão e noites mal dormidas entre adolescentes e jovens adultos no Brasil tem atingido com força desproporcional a população negra. Estudos recentes apontam que o uso excessivo de telas e a dependência digital estão no centro desse quadro, que se agrava diante do racismo estrutural e do acesso desigual a cuidados.

Telas, ansiedade e noites mal dormidas

Uma pesquisa com 618 jovens de 15 a 36 anos identificou que 48,1% apresentam dependência moderada de internet, associada a níveis mais altos de ansiedade, depressão e estresse, além de pior qualidade do sono. O estudo indica ainda que sofrimento psicológico e uso problemático da internet são preditores diretos de distúrbios do sono, como a insônia.

Outro trabalho, publicado em 2024 na revista BMC Psychology, reforça a relação entre dependência de celular, ansiedade e alterações no sono. Menor prática de atividade física aparece como fator associado à intensificação dos sintomas. Os autores descrevem um ciclo que se retroalimenta: mais estresse leva a mais tempo de tela, o que piora o sono e amplia o sofrimento emocional.

Efeitos mais duros na juventude negra

Entre jovens negros, esse cenário se torna mais severo por causa da exposição a desigualdades, discriminação e barreiras no acesso a serviços de saúde mental. Para a psicóloga junguiana Andrea Beltran, a combinação de fatores sociais e raciais aumenta a vulnerabilidade e impacta o desenvolvimento psíquico.

“Para os jovens negros, o racismo e a desigualdade funcionam como uma espécie de sombra coletiva que interfere na vida emocional, bloqueia o processo de individuação e intensifica sintomas como ansiedade e insônia”, afirma Beltran.

Segundo ela, a falta de reconhecimento institucional e social da experiência racial desses jovens alimenta sentimentos de inadequação e sobrecarga, dificultando a construção da identidade. “Eles lidam não apenas com suas questões individuais, mas também com o peso de um ambiente que oferece menos oportunidades e mais barreiras”, diz.

O que pode ser feito

Especialistas defendem respostas que vão além do consultório. Entre as medidas, estão ampliar o acesso equitativo a psicoterapia e atenção psicossocial, criar espaços de acolhimento e pertencimento em escolas e comunidades e implementar políticas públicas antirracistas que promovam proteção social e redução de danos.

Beltran ressalta que cuidados estruturados e culturalmente sensíveis são decisivos para quebrar o ciclo entre sofrimento emocional, vício em telas e privação de sono. “A saúde mental dos jovens negros só pode avançar quando há apoio emocional, social e institucional. Isso permite que desenvolvam sua força interior e avancem em suas trajetórias com dignidade.”

Os dados reforçam a urgência de abordagens integradas que considerem racismo estrutural, desigualdade e uso problemático de tecnologias. A combinação de educação digital, incentivo à atividade física, rotinas saudáveis de sono e acesso a cuidado qualificado pode reduzir riscos e melhorar a qualidade de vida dessa geração.