Fibromialgia atinge 6 milhões no Brasil e ainda é alvo de preconceito e desinformação
Dor no corpo todo, cansaço intenso e sono que não descansa podem durar anos até o diagnóstico. Especialista alerta para preconceito e dificuldade de acesso ao cuidado, especialmente no SUS.
Por Redação Brazil Health , 20/07/2026
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Cerca de 6 milhões de brasileiros convivem com fibromialgia, estimativa que corresponde a aproximadamente 3% da população, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). Apesar de ser uma condição relativamente comum, muitos pacientes ainda enfrentam desinformação e preconceito, o que pode atrasar o diagnóstico e o início do tratamento.
O reumatologista Marcos Renato de Assis explica que a fibromialgia é uma condição crônica marcada por dor difusa, fadiga, alterações do sono e dificuldade de concentração, com impacto direto na vida social, emocional e profissional. “A fibromialgia compromete muito a qualidade de vida, mas não provoca deformidades ou lesões estruturais. O paciente não terá alterações em órgãos internos nem sequelas físicas como ocorre em algumas doenças inflamatórias”, afirma.
Um dos pontos que alimentam o estigma é o fato de a doença não apresentar alterações evidentes em exames laboratoriais ou de imagem. Com isso, não é raro que pessoas passem anos tentando entender a origem das dores e do cansaço, circulando por consultórios e pronto-atendimentos até receberem uma explicação para o que sentem.
Levantamento de base populacional publicado no Brazilian Journal of Pain indica que a condição é mais frequente em mulheres: para cada homem diagnosticado, há 5,5 mulheres com fibromialgia, principalmente entre 35 e 60 anos.
Dor generalizada, fadiga e sono não reparador
A dor espalhada pelo corpo é um dos sinais mais característicos. De acordo com o especialista, ela costuma ocorrer em diferentes regiões ao mesmo tempo e, em geral, aparece dos dois lados do corpo, acima e abaixo da cintura, incluindo o tronco. O cansaço persistente também é frequente e pode ser desproporcional às atividades do dia.
Outra queixa comum é acordar sem disposição mesmo após dormir por várias horas. “Muitas vezes, a pessoa dorme várias horas e acorda como se não tivesse descansado nada, como se tivesse trabalhado durante toda a noite”, afirma Marcos Renato de Assis.
Para que o diagnóstico seja estabelecido, os sintomas precisam estar presentes por pelo menos três meses. Ainda assim, o reconhecimento pode demorar, o que piora o impacto da doença na rotina e na saúde emocional.
Tratamento envolve hábitos, suporte e equipe multiprofissional
Embora a fibromialgia não tenha cura, o tratamento pode reduzir de forma importante a dor e melhorar a funcionalidade. A abordagem, porém, não se limita a medicamentos. Entre as estratégias mais recomendadas estão a prática regular de atividade física, ações para melhorar o sono, redução do estresse e mudanças no estilo de vida, além de acompanhamento psicológico quando necessário.
Os remédios entram como suporte para controlar dor e sintomas associados, como ansiedade e depressão. “A nossa meta é fazer com que a pessoa tenha qualidade de vida, consiga manter suas atividades diárias, o convívio familiar e profissional com satisfação”, destaca o reumatologista.
Nos últimos anos, algumas terapias não invasivas também passaram a ser estudadas, como técnicas de estimulação cerebral. Pesquisas com estimulação transcraniana magnética e elétrica têm mostrado resultados promissores para parte dos pacientes no alívio dos sintomas.
Estresse e traumas podem estar ligados ao início dos sintomas
As causas exatas da fibromialgia ainda não são totalmente conhecidas. Pesquisadores apontam uma combinação de fatores físicos, emocionais e biológicos que podem estar associados ao surgimento do quadro. Entre eles, são citados traumas físicos, estresse prolongado, obesidade, doenças inflamatórias e transtornos psiquiátricos.
Segundo o especialista, é comum ouvir relatos de início dos sintomas após situações marcantes. “Muitas pessoas relatam que os sintomas começaram após uma perda importante, uma separação ou um período de grande sofrimento emocional”, comenta. Ele ressalta que nem todo estresse é prejudicial, mas o problema aparece quando a carga emocional supera a capacidade de adaptação do organismo. “Existe um estresse saudável, que promove adaptação. Mas também existe aquele que desequilibra completamente o sistema de resposta do organismo”, explica.
Diagnóstico tardio e barreiras no SUS
Mesmo com mais informação e pesquisas sobre a doença, ainda há obstáculos para diagnóstico e tratamento, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS). Marcos Renato de Assis afirma que não é incomum encontrar pessoas com décadas de sintomas antes de uma avaliação adequada. “A gente encontra pacientes encaminhados com 20 ou 30 anos de dor. E isso faz diferença, porque quanto mais precoce o diagnóstico, melhor tende a ser o prognóstico”, alerta.
Ele também defende o fortalecimento de equipes multidisciplinares na rede pública, já que o cuidado costuma envolver diferentes profissionais, como fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e educadores físicos.
Para o especialista, combater a desinformação faz parte do tratamento, inclusive dentro dos serviços de saúde. “É preciso entender a história daquela pessoa, olhar além dos sintomas e compreender o contexto em que ela vive”, afirma. O objetivo, reforça, não é apenas reduzir a dor, mas recuperar autonomia, bem-estar e qualidade de vida.
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