Presenteísmo pode reduzir desempenho de 1 em cada 3 trabalhadores, alerta especialista
Fenômeno ocorre quando a pessoa vai ao trabalho, mas produz menos por desgaste emocional; estimativas apontam impacto de centenas de bilhões de reais por ano e acendem alerta para a saúde mental nas empresas.
Por Redação Brazil Health , 11/05/2026
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Uma parte expressiva dos trabalhadores brasileiros pode estar no emprego, mas com desempenho abaixo do habitual por motivos de saúde mental. O quadro é conhecido como presenteísmo – quando o profissional mantém a presença física, porém não consegue sustentar plenamente a capacidade cognitiva e emocional para executar tarefas, tomar decisões e lidar com pressão.
Segundo estimativas do IBEF-SP citadas por especialistas, o presenteísmo custaria mais de R$ 200 bilhões por ano à economia brasileira. Dentro das empresas, o índice médio mencionado é de 31%, o que indicaria que quase um terço do tempo remunerado pode estar associado a performance comprometida.
“É o trabalhador que continua entregando, mas entrega menos. Decide, mas decide pior. Lidera, mas já está desgastado. Como ele ainda está presente, esse problema é invisível – e, muitas vezes, normalizado dentro das empresas”, afirma o psiquiatra corporativo Daniel Sócrates, que atua com saúde mental no trabalho.
Sinais aparecem antes do afastamento
O presenteísmo costuma ser descrito como um processo gradual, que pode anteceder o afastamento formal por meses ou anos. Ansiedade persistente, exaustão, irritabilidade, dificuldade de concentração e perda de prazer são sinais frequentemente relatados e, muitas vezes, tratados como parte “normal” da rotina.
“Antes do afastamento formal, há meses – às vezes anos – de queda silenciosa de desempenho. É o líder que perde a tolerância, o gestor que não dorme, o executivo que toma decisões com a cognição comprometida. É o adoecimento disfarçado de produtividade”, diz Sócrates.
O alerta ocorre em meio a um aumento de afastamentos por transtornos mentais no país. Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos por esse motivo, o maior número da série histórica, com crescimento expressivo de casos de ansiedade na última década. Para o especialista, os afastamentos não capturam toda a extensão do problema, já que muitos continuam trabalhando sem buscar ajuda.
Prejuízo pode superar faltas ao trabalho
O impacto também aparece em estudos internacionais. Pesquisa publicada no Journal of Affective Disorders apontou o Brasil como o segundo país com maior prejuízo associado ao presenteísmo ligado à depressão, com perdas anuais acima de US$ 63 bilhões. Já a Harvard Business Review indica que, em atividades de alta exigência mental e emocional, o custo do presenteísmo pode ser até três vezes maior do que o do absenteísmo.
NR-1 amplia responsabilidade das empresas
Com a atualização da NR-1, que inclui riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, a saúde mental passa a ser enquadrada como risco ocupacional, com responsabilidades diretas para as organizações. “Não se trata mais de uma pauta de bem-estar. É uma questão de gestão de risco. Ignorar o presenteísmo é ignorar um fator que compromete produtividade, segurança e tomada de decisão”, afirma o psiquiatra.
Ele avalia que um erro comum é tratar o presenteísmo como falha individual, e não como possível reflexo de práticas e condições de trabalho. “As empresas que não revisarem suas práticas vão pagar duas vezes: na produtividade que se perde todos os dias e no passivo trabalhista que se acumula em silêncio. Não falta gente trabalhando. Falta gente inteira”, conclui.