Isolamento e queda no desempenho: por que meninos e jovens homens estão ficando para trás
Pesquisas internacionais apontam piora em indicadores de educação e saúde mental, além de maior adesão a visões tradicionais sobre gênero. Psiquiatra explica como telas, bolhas digitais e falta de referências pesam nesse cenário.
Por Redação Brazil Health , 09/07/2026
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Eles passam mais tempo sozinhos, têm mais dificuldade na escola e relatam mais sofrimento emocional. Ao mesmo tempo, uma parcela de meninos e jovens homens parece se aproximar de ideias mais tradicionais sobre gênero, num movimento que chama atenção em meio ao avanço do debate por igualdade. Para a psiquiatra Danielle Admoni, o fenômeno é real e precisa ser encarado como um problema de desenvolvimento e saúde mental, não como uma disputa ideológica.
Levantamento global divulgado em março de 2026 pela Ipsos em parceria com o Global Institute for Women’s Leadership, do King’s College London, indica que jovens homens da geração Z têm apresentado, em média, atitudes mais tradicionais e, em alguns casos, mais machistas do que gerações anteriores. O dado se destaca justamente por surgir em um momento histórico de maior visibilidade para pautas de direitos das mulheres e equidade de gênero.
Segundo Admoni, uma parte importante dessa mudança passa pela forma como adolescentes constroem identidade hoje. “O ambiente digital virou um espaço central de pertencimento, validação e aprendizado social”, afirma a psiquiatra. O problema, explica, é que essa mesma dinâmica pode empurrar jovens para bolhas de conteúdo, onde visões simplificadas e polarizadas sobre masculinidade circulam com facilidade.
Nesse contexto, influenciadores que defendem modelos de masculinidade baseados em dominação e antagonismo entre homens e mulheres tendem a ganhar audiência entre jovens mais inseguros, com baixa autoestima ou dificuldades de inserção social. A especialista alerta que esse tipo de mensagem pode oferecer uma sensação rápida de identidade e “resposta pronta” para frustrações, mas costuma cobrar um preço alto em termos de relações, empatia e saúde emocional.
Outro ponto de atenção é o aumento do tempo de telas, incluindo redes sociais e jogos on-line, muitas vezes acompanhado pela queda de interações presenciais. Esse padrão tem sido associado a perdas no desenvolvimento de habilidades socioemocionais, maior incidência de sintomas de ansiedade e aumento da percepção de isolamento.
Com menos vínculos consistentes fora das telas, cresce a vulnerabilidade a discursos extremos e diminui a chance de encontrar referências estáveis na vida real. “A redução de interações presenciais pode dificultar a construção de repertório emocional e social”, destaca Admoni.
Educação, “nem-nem” e suicídio: sinais de desvantagem acumulada
O alerta também aparece em indicadores educacionais e sociais. O relatório Lost Boys, publicado em março de 2025 pelo The Centre for Social Justice, no Reino Unido, aponta que jovens homens têm desempenho educacional inferior ao das mulheres, maior probabilidade de integrar o grupo dos “nem-nem” (jovens que não estudam nem trabalham) e maior risco de suicídio.
Para a psiquiatra, quando esses fatores se somam ao longo dos anos, formam uma espécie de “desvantagem acumulada” no desenvolvimento. A consequência pode ser uma trajetória mais instável na transição para a vida adulta, com impactos em trabalho, autonomia e relacionamentos.
O relatório também chama atenção para um fator estrutural: a ausência ou fragilidade de referências masculinas positivas durante a infância e a adolescência. A literatura científica aponta que figuras consistentes de referência ajudam na regulação do comportamento, no amadurecimento emocional e na construção de identidade. Quando esses modelos faltam, a busca tende a migrar para o ambiente digital, onde a qualidade e a diversidade das referências variam muito.
Admoni ressalta que olhar para as dificuldades de meninos e jovens homens não significa relativizar avanços das mulheres. “Reconhecer necessidades específicas de cuidado não coloca em risco a equidade; pelo contrário, ajuda a evitar o agravamento de indicadores sociais e de saúde mental”, afirma.
O que família e sociedade podem fazer
Para especialistas, a resposta passa por uma abordagem multidimensional, que considere fatores individuais, familiares, educacionais e culturais. Em casa, o papel da família é central: presença ativa de pais ou responsáveis, diálogo sem julgamento e acompanhamento do conteúdo consumido on-line funcionam como proteção.
Também entra na lista a definição de limites de tempo de tela e de acesso a conteúdos, de forma compatível com a idade. A ideia não é apenas “proibir”, mas ajudar o jovem a construir critérios, ampliar repertório e manter vínculos presenciais que sirvam de base para autoestima, pertencimento e saúde mental.
Na avaliação de Admoni, políticas públicas e práticas de cuidado precisam acompanhar a complexidade do tema. Sem respostas estruturadas, os sinais atuais podem se intensificar e impactar não apenas os próprios jovens, mas a convivência social e o bem-estar coletivo.
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