Cirurgia Oncológica

Por que algumas pessoas ficam presas ao passado e não conseguem seguir em frente

Psicóloga Dorli Kamkhagi explica como lembranças idealizadas podem travar decisões no presente e afetar relações, e aponta caminhos para retomar vínculos e projetos sem negar a própria história.

Por Redação Brazil Health , 19/07/2026

6 min de leitura

Por que algumas pessoas ficam presas ao passado e não conseguem seguir em frente

Ficar preso ao passado não é apenas “saudade” ou nostalgia. Em muitos casos, essa fixação ocupa tanto espaço que o presente perde força: decisões são adiadas, novos vínculos não se formam e a vida passa a girar em torno de lembranças, arrependimentos ou relações que já terminaram.

A psicóloga Dorli Kamkhagi afirma que essa dinâmica aparece com frequência no consultório, quando pacientes relatam situações antigas como se ainda estivessem vivendo “naquele tempo”. “Desta forma o presente deixa de ter o seu lugar; e perde sua força e intensidade”, observa a especialista, ao descrever como o apego a uma fase específica pode paralisar escolhas e impedir mudanças.

Entre os exemplos mais comuns está a idealização de um amor do passado ou de uma relação familiar que ficou mal resolvida. Há casos em que a pessoa se agarra a uma história que, na prática, não foi tão boa quanto a memória faz parecer — ou sequer existiu com a grandiosidade atribuída depois. A idealização, nesse contexto, funciona como uma espécie de filtro: suaviza dores, reorganiza lembranças e cria a sensação de que ali havia algo “perfeito” que não pode ser substituído.

Kamkhagi explica que, ao investigar a história de vida e a estrutura emocional do paciente, costuma aparecer uma necessidade de sustentar uma narrativa que dá sentido à vida — mesmo que esse sentido seja mantido na fantasia. “Muito deste amor idealizado era fruto de uma necessidade de manter uma história, às vezes mítica”, afirma.

O que a psicologia aponta sobre esse tipo de fixação

Uma das leituras possíveis vem da Teoria do Apego, desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista John Bowlby, que relaciona a qualidade dos primeiros vínculos (entre bebê e cuidadores) com o modo como a pessoa tende a se relacionar ao longo da vida. A ideia central é que todo indivíduo nasce com capacidade de formar laços, mas a segurança emocional depende da resposta recebida às necessidades básicas e afetivas na infância.

Quando existe cuidado consistente e uma troca afetiva estável, a criança tende a desenvolver mais segurança interna para explorar o mundo e construir relações. Quando isso falha, podem surgir insegurança, medo, dificuldade de confiar e conflitos que reaparecem em vínculos futuros.

Na vida adulta, esse terreno pode favorecer um movimento de retorno ao que é conhecido, mesmo que seja doloroso. Em vez de se arriscar no novo — com suas incertezas — algumas pessoas se agarram ao passado como se fosse um lugar “garantido”, reconstruído pela idealização. “Algumas pessoas recorrem ao passado na tentativa de ficarem com algo que já conhecem”, explica Kamkhagi, ao descrever o mecanismo como uma forma de proteção contra a dor.

Esse tipo de defesa pode transformar até memórias difíceis em algo suportável, e, ao mesmo tempo, impedir que a pessoa crie novas experiências afetivas. Segundo a psicóloga, há situações em que uma relação dolorosa com pais ou parceiros ocupa tamanho espaço emocional que não sobra energia psíquica para um novo amor, um novo projeto ou um novo ciclo. “O trabalho de terapia pode dar uma nova ressignificação”, afirma.

A fixação também pode se aproximar do que a psicanálise descreve como dificuldade de elaborar um luto — quando a perda não é integrada e a pessoa permanece ligada ao que já não existe. Em outra vertente, o pediatra e psicanalista Donald Winnicott descreveu como as primeiras relações de cuidado influenciam a capacidade de construir vínculos mais saudáveis no futuro, e como falhas nesses laços podem deixar marcas importantes na autoestima e na forma de buscar afeto.

Quando o passado vira armadilha nas relações

Kamkhagi relata um caso clínico para ilustrar como a idealização pode sustentar relacionamentos e, ao mesmo tempo, esconder sofrimento. Uma paciente, que ela chama de Rachel, procurou terapia dizendo viver um “casamento de conto de fadas” e afirmando não aceitar o fim da relação. Aos 60 anos, ela havia abandonado a carreira para se dedicar ao modelo de vida que sonhava.

Com o avanço do acompanhamento, surgiram nuances que contrariavam a imagem inicial. O marido, visto como “o príncipe de seus sonhos”, passou a ser percebido também por traços de crueldade e por comportamentos que repetiam padrões familiares antigos. Ainda assim, a manutenção da fantasia seguia importante para a paciente — como se desistir daquela imagem significasse encarar perdas mais profundas.

A especialista usa uma metáfora para descrever parte dessas relações: “Unidos pelo ódio”. Nesse tipo de dinâmica, o vínculo pode ser mantido não pelo cuidado, mas por desamor, indiferença e longas esperas por um retorno ao “paraíso perdido”. “O ódio pode nutrir as relações perversas”, alerta Kamkhagi, ao observar que fantasias idealizadas podem impedir a pessoa de reconhecer conflitos reais e, quando necessário, de romper.

Para a psicóloga, um caminho de saída passa por enfrentar o fim das máscaras que dão falsa proteção e reconhecer a própria fragilidade como parte do processo de amadurecimento emocional. “Talvez uma das saídas seja a coragem de poder se sentir frágil e encarar a necessidade de romper com fantasias destrutivas”, destaca.

Nesses casos, a terapia não tem como objetivo apagar o passado, mas colocá-lo em perspectiva. Ao tornar as lembranças menos idealizadas e mais integradas à história real, o presente volta a ganhar espaço — e, com ele, a possibilidade de escolhas, vínculos e planos que não dependam de uma versão congelada do que já foi.