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Por que a Copa do Mundo mexe tanto com a gente, segundo a psicologia e o cérebro

Da troca de figurinhas ao silêncio antes do pênalti, o torneio cria conexões sociais e marca lembranças duradouras; entenda por que as emoções parecem “contagiosas”

Por Redação Brazil Health , 25/06/2026

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Por que a Copa do Mundo mexe tanto com a gente, segundo a psicologia e o cérebro

A cena é comum em anos de Copa do Mundo: um avô e um neto se encontram diante de um álbum de figurinhas, negociam repetidas, comemoram uma rara. Em casa, amigos e familiares se juntam para ver o jogo; o cheiro de pipoca invade a sala e, segundos antes de uma cobrança decisiva, um silêncio coletivo toma conta do ambiente. Para a psicóloga Marcia Lenci Viscomi, esses momentos mostram que o evento vai muito além do futebol e funciona como um ritual capaz de reorganizar emoções e fortalecer laços.

Em tempos de rotina acelerada e de relações mediadas por telas, a Copa costuma criar uma espécie de “pausa social” que puxa as pessoas para a presença: olhar no olho, combinar encontros, vibrar junto, sofrer junto. Essa experiência compartilhada ajuda a reduzir a sensação de isolamento e dá ao cotidiano um marco comum, vivido em grupo.

Figurinhas: quando o jogo começa antes do apito inicial

O fenômeno, segundo Viscomi, se forma muito antes de a bola rolar. O álbum e as figurinhas viram um ponto de encontro entre gerações e criam uma linguagem comum: a lista do que falta, a ansiedade pelo pacote novo, o “tem repetida?”. “A troca presencial impõe olhar, negociação e até desapego, e isso derruba barreiras entre idades diferentes”, afirma a psicóloga.

Além do componente social, existe um gatilho biológico importante. A expectativa de conseguir a figurinha “difícil” ativa mecanismos cerebrais ligados à recompensa. “A busca pela figurinha rara tende a aumentar a sensação de prazer a cada pacote aberto, e o contato face a face favorece o vínculo”, explica Viscomi, ao destacar o papel de substâncias associadas ao prazer e à conexão social.

Torcer em grupo: emoções que se espalham

Assistir aos jogos com outras pessoas também muda a forma como o corpo reage. A alegria do gol, a angústia do quase, a frustração do erro: tudo isso ganha outra dimensão quando é vivido coletivamente. Viscomi descreve que, na torcida, há uma sensação de pertencimento que suaviza a solidão cotidiana. “As fronteiras do ‘eu’ ficam menos rígidas por um tempo, e a catarse do gol vira um alívio compartilhado”, diz.

Na prática, isso aparece no modo como o ambiente “contamina” o estado emocional de todos: ansiedade antes do pênalti, explosão no gol, tensão prolongada em jogos decisivos. A psicóloga chama atenção para a capacidade humana de espelhar emoções alheias. “Quando vemos a reação do atleta na tela ou do torcedor ao lado, nosso cérebro tende a simular aquela experiência”, afirma.

O resultado é que o grupo passa a funcionar como um sistema sincronizado: o clima emocional se alinha, a validação mútua aumenta e o estresse do dia a dia pode perder força por alguns instantes. Para muita gente, esse é um antídoto concreto contra a sensação de desconexão social.

Por que a Copa vira lembrança para a vida toda

Outra marca típica do torneio é a memória: muita gente lembra com precisão onde estava, com quem assistiu e até quais cheiros sentiu em jogos específicos. Viscomi avalia que a Copa funciona como um “marcador de tempo” da vida emocional, capaz de organizar lembranças em torno de episódios intensos.

Há uma explicação simples por trás disso: eventos carregados de emoção costumam ser registrados com mais força pelo cérebro. Em situações de grande excitação coletiva, o organismo entende que aquilo é relevante e grava detalhes do contexto com maior nitidez. “O clamor do grupo faz o momento parecer ‘grande’ e, por isso, ele se fixa na biografia afetiva das pessoas”, explica a psicóloga.

Uma pausa legitimada para sentir

Para além do esporte, a Copa também cria um intervalo em que certas emoções ficam socialmente permitidas: gritar, chorar, parar a rotina, xingar o juiz. “É uma trégua temporária das exigências do dia a dia; a festa e o ritual autorizam a expressão emocional”, destaca Viscomi.

Esse deslocamento do foco — de tarefas estressantes e telas individuais para uma experiência coletiva — ajuda o cérebro a “respirar”. Ao compartilhar a torcida, cresce a sensação de segurança e de pertencimento, como se o indivíduo fizesse parte de algo maior. “O isolamento costuma aumentar o desamparo; na torcida, a pessoa sente que está amparada por um corpo coletivo”, afirma.

No fim, a Copa do Mundo segue sendo um dos raros momentos contemporâneos em que presença, afeto e conexão se impõem sobre a pressa. Para Viscomi, o impacto emocional do torneio revela algo básico: “Fundamentalmente, somos seres de vínculo — e o ritual coletivo lembra que é possível descansar, por um tempo, no afeto comum”.