Distração e mente acelerada nem sempre são TDAH; telas, ansiedade e sono pesam
Especialista explica por que distração, procrastinação e esquecimentos, sozinhos, não confirmam o transtorno e reforça a necessidade de avaliação clínica para evitar autodiagnóstico e tratamentos inadequados.
Por Redação Brazil Health , 18/07/2026
4 min de leitura
Dificuldade de concentração, procrastinação, esquecimentos, irritabilidade e sensação de mente acelerada costumam ser associados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Mas esses sinais também podem aparecer em situações comuns do dia a dia, como ansiedade, privação de sono, estresse prolongado, burnout e excesso de estímulos digitais.
O alerta ganha força em meio ao aumento de conteúdos sobre saúde mental nas redes e ao crescimento do autodiagnóstico. Para a neuropsicóloga Michelle Andrade, professora de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), sintomas isolados não definem o transtorno.
“A principal diferença está na frequência, intensidade, persistência e no impacto que esses comportamentos provocam na vida da pessoa. Todos podem se distrair, esquecer compromissos ou procrastinar em algum momento. No TDAH, porém, esses sinais são persistentes, acompanham o indivíduo há muitos anos e comprometem seu desempenho acadêmico, profissional, social, familiar ou emocional”, afirma.
O que diferencia o TDAH de outras condições
Um dos principais desafios do diagnóstico é que diferentes problemas podem gerar manifestações parecidas. Ansiedade e depressão, transtornos do sono, estresse crônico, burnout, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e até condições médicas podem afetar atenção, memória, organização e controle emocional.
Por isso, a avaliação precisa ir além de listas de sintomas. Segundo a especialista, entram na análise o histórico do paciente, a idade em que as dificuldades começaram, os contextos em que aparecem e os prejuízos que causam. “A pergunta não deve ser apenas ‘a pessoa se distrai?’, mas ‘por que ela se distrai, desde quando isso acontece e em quais situações?’”, diz.
Excesso de telas pode imitar falta de atenção
O ambiente digital também pode influenciar o funcionamento do cérebro. Redes sociais, vídeos curtos e jogos oferecem recompensas rápidas e estímulos constantes, enquanto atividades como estudar e ler por longos períodos exigem atenção sustentada e retorno menos imediato.
“O ambiente digital pode imitar ou potencializar sintomas semelhantes aos do TDAH, principalmente quando se somam à falta de sono, ansiedade ou excesso de estímulos. Nem todo cérebro distraído é um cérebro com TDAH. Muitas vezes, é um cérebro cansado, hiperestimulado ou emocionalmente sobrecarregado”, explica.
Autodiagnóstico nas redes e risco de tratar errado
Michelle reconhece que as redes sociais ajudam a disseminar informações sobre saúde mental, mas alerta para o perigo de conteúdos simplificados demais. “Informação de qualidade amplia o conhecimento; informação superficial amplia a confusão. E o algoritmo, infelizmente, não faz diagnóstico”, afirma.
Embora seja um transtorno do neurodesenvolvimento, o TDAH pode passar despercebido até a vida adulta, especialmente em pessoas com bom desempenho intelectual, rotina mais estruturada ou estratégias que mascararam dificuldades por anos. Com o aumento das responsabilidades, essas compensações podem falhar e os sintomas ficam mais evidentes.
Para reduzir o risco de tratamentos inadequados, a especialista destaca o papel da avaliação neuropsicológica na investigação de funções como atenção, memória operacional, planejamento, organização e controle inibitório, além do diagnóstico diferencial e da identificação de comorbidades. Ela ressalta, porém, que nenhum teste isolado confirma ou descarta o transtorno. “Um bom diagnóstico não serve para rotular a pessoa. Ele permite compreender a origem das dificuldades, orientar o tratamento adequado, reduzir prejuízos e promover uma melhor qualidade de vida”, conclui.
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