Paracoccidioidomicose

Paracoccidioidomicose cresce no Brasil e revela lacunas no diagnóstico e na vigilância

Doença fúngica ligada ao solo segue fora da notificação obrigatória e é frequentemente confundida com tuberculose, atrasando tratamento e elevando o risco de sequelas, alertam especialistas.

Por Redação Brazil Health , 27/01/2026

4 min de leitura

Paracoccidioidomicose cresce no Brasil e revela lacunas no diagnóstico e na vigilância

A paracoccidioidomicose, infecção causada por fungos do gênero Paracoccidioides, voltou ao foco após casos graves ganharem repercussão no país. Considerada por especialistas a micose sistêmica que mais leva a internações e mortes no Brasil, a doença permanece pouco conhecida fora do meio técnico e enfrenta entraves no diagnóstico e na vigilância.

A infecção ocorre principalmente pela inalação de poeira contaminada do solo, em atividades como agricultura, terraplenagem, abertura de estradas e jardinagem. O fungo pode se espalhar pelo corpo e atingir pulmões, pele, mucosas, linfonodos, glândulas suprarrenais e até o sistema nervoso central, desencadeando inflamação crônica e fibrose, com risco de sequelas permanentes.

“O grande perigo da paracoccidioidomicose é o diagnóstico tardio. Quando a doença não é identificada a tempo, o fungo já se espalhou pelo organismo e as sequelas podem ser permanentes, afetando a respiração e a produção de hormônios essenciais à vida”, afirma Guilherme Ferreira de Oliveira, patologista clínico e presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML).

Diagnóstico difícil e confundido com outras doenças

Segundo Oliveira, os sinais e sintomas costumam se confundir com os da tuberculose e até de alguns cânceres, o que retarda a conduta clínica. Ele explica que o diagnóstico laboratorial ainda depende, em grande parte, de métodos que exigem alta expertise: a visualização do fungo ao microscópio pede olhar treinado, o cultivo é demorado e biópsias requerem colorações específicas. Testes sorológicos ajudam a confirmar e a acompanhar o tratamento, mas podem falhar em determinadas espécies, gerando falso-negativos. Já exames moleculares mais modernos despontam como alternativa, porém ainda carecem de ampla padronização e acesso na rotina.

Vigilância falha e avanço para novas áreas

Um dos principais gargalos está na ausência da paracoccidioidomicose na lista nacional de doenças de notificação compulsória. “Hoje, a paracoccidioidomicose é praticamente invisível para o sistema de saúde. Sem números reais, fica muito difícil planejar a distribuição de medicamentos, estruturar serviços e investir em novas tecnologias diagnósticas”, destaca o presidente da SBPC/ML.

Tradicionalmente mais frequente nas regiões Sudeste e Sul, a doença vem se expandindo para Norte e Centro-Oeste, acompanhando a abertura de novas áreas agrícolas e obras que revolvem o solo. Trabalhadores rurais e populações com menor acesso a informação, proteção respiratória e serviços de saúde são os mais vulneráveis – muitas vezes chegando ao diagnóstico em fases avançadas.

Tratamento longo exige adesão

O tratamento depende da gravidade. Casos leves costumam responder a antifúngicos orais, como itraconazol; quadros graves podem exigir internação e anfotericina B por via endovenosa. “A terapia pode durar de nove a 24 meses – e a suspensão precoce aumenta significativamente o risco de recidiva e agravamento das sequelas”, ressalta Oliveira. Em parte dos pacientes, é necessário acompanhamento prolongado, com fisioterapia respiratória ou reposição hormonal. Não há vacina nem medidas eficazes de controle ambiental, o que reforça a importância do diagnóstico precoce.

Diante do cenário, a SBPC/ML defende ações integradas em educação, ciência e políticas públicas: capacitar equipes de laboratório, padronizar e ampliar o acesso a métodos diagnósticos – inclusive moleculares – e tornar a doença de notificação compulsória, além de fortalecer a rede de centros de referência. “Reduzir a mortalidade passa por fortalecer os laboratórios, qualificar profissionais e dar visibilidade a uma doença que, apesar de grave, ainda é negligenciada”, conclui.