Medicina Intensiva

Estresse e longas jornadas afetam mais a qualidade de vida de médicos do que a renda

Levantamento nacional com 2.005 profissionais, publicado no BMJ Open, indica que trabalhar 60 horas ou mais por semana está ligado a pior bem-estar, enquanto o efeito de ganhos mais altos perde força após certo patamar.

Por Redação Brazil Health , 17/04/2026

3 min de leitura

Estresse e longas jornadas afetam mais a qualidade de vida de médicos do que a renda

O estresse percebido é o principal fator associado à qualidade de vida de médicos no Brasil, superando o peso da renda. A conclusão é de um estudo que criou um indicador nacional para medir bem-estar na categoria e analisou respostas de 2.005 profissionais de todas as regiões do país. Os resultados foram publicados na revista científica BMJ Open.

De acordo com a pesquisa, médicos com jornadas de 60 horas semanais ou mais apresentaram níveis de estresse significativamente maiores do que aqueles que trabalham até 44 horas. Já a renda influencia a percepção de bem-estar, mas o efeito diminui depois que o profissional atinge um patamar de suficiência financeira.

Como o índice foi medido

O estudo consolidou diferentes dimensões da qualidade de vida em uma escala única, de 0 a 100, em que pontuações mais altas indicam percepção mais positiva de saúde e bem-estar. O resultado geral foi de 67,2 pontos.

Os pesquisadores estruturaram o índice em três frentes: qualidade de vida pessoal (como saúde, lazer e recursos financeiros), suporte institucional (clima organizacional e segurança psicológica diante de erros) e estresse percebido (quando a carga de trabalho começa a afetar desempenho e vida pessoal). No recorte por dimensões, os escores foram de 69,5 para qualidade de vida pessoal, 64,1 para suporte institucional e 62,5 para estresse percebido.

Jornada acima de 60 horas aparece como principal fator de pressão

Entre os achados, o estresse percebido foi o ponto mais crítico. Profissionais com 60 horas semanais ou mais tiveram pontuações de estresse 8,8 pontos maiores do que os que relataram trabalhar até 44 horas.

O estudo também observou que o estresse tende a diminuir conforme aumenta o tempo desde a graduação, sugerindo que estabilidade e maior controle sobre a agenda podem contribuir para uma percepção melhor ao longo da carreira. “O estresse percebido é considerado o termômetro mais sensível em nosso estudo, porque ele responde ao gênero, à fase da carreira e à cultura organizacional”, afirmou Marcelo Gobbo, médico de família e um dos autores do trabalho.

Mais dinheiro ajuda, mas há um limite

A renda mensal mostrou associação com bem-estar, mas com um teto: o ganho de qualidade de vida se estabiliza a partir de cerca de R$ 25 mil mensais, segundo a pesquisa. A partir desse nível, aumentos adicionais têm impacto pequeno na percepção de bem-estar, fenômeno que os autores descrevem como “saciação de renda”.

Na prática, o estudo sugere que, depois de alcançada uma condição financeira confortável, fatores como tempo disponível, autonomia e condições de trabalho passam a ter maior peso na saúde mental do que reajustes salariais.

O levantamento foi feito online entre 2 de julho e 6 de agosto de 2024, com médicos vinculados aos 27 Conselhos Regionais de Medicina. A idade média dos participantes foi de cerca de 39 anos, com predominância feminina (entre 51% e 56%, conforme a base analisada) e renda líquida média mensal declarada de R$ 18.300.