Medicina Intensiva

Cannabis medicinal para insônia: o que se sabe sobre benefícios e riscos

Com queixas de sono em alta no Brasil, especialistas avaliam quando canabinoides podem ajudar e quais cuidados evitam efeitos indesejados.

Por Redação Brazil Health , 21/06/2026

4 min de leitura

Cannabis medicinal para insônia: o que se sabe sobre benefícios e riscos

Queixas de sono se tornaram mais frequentes no Brasil e têm contribuído para o aumento do uso de remédios sedativos, como clonazepam e zolpidem. Esse tipo de tratamento pode aliviar sintomas no curto prazo, mas levanta preocupações por efeitos adversos e risco de dependência, o que tem impulsionado a procura por alternativas – entre elas, a cannabis medicinal.

Levantamentos nacionais citados por especialistas indicam que 35,1% dos brasileiros relatam problemas de sono. Em pesquisas sobre queixas ao longo da vida, a proporção chega a 58,6% com algum tipo de insônia, incluindo dificuldade para pegar no sono, manter o sono ou voltar a dormir após despertar.

As queixas não afetam todos da mesma forma. Mulheres tendem a relatar pior qualidade de sono com mais frequência. Baixa escolaridade, menor renda, presença de doenças crônicas, sedentarismo e tabagismo também aparecem associados a maior risco de distúrbios do sono.

Por que canabinoides podem influenciar o sono

A proposta do tratamento com cannabis se baseia na ação de substâncias da planta sobre o sistema endocanabinoide, uma rede de receptores presente no cérebro e em outros órgãos, ligada a funções como estresse, humor e regulação do ciclo sono-vigília.

Entre os compostos mais discutidos para o tema estão THC, CBD e CBN, com efeitos diferentes. “Os canabinoides THC e CBN em doses controladas ajudam na indução e profundidade do sono. Já o CBD tem efeito ansiolítico, o que melhora a qualidade geral do sono, protegendo o sono REM”, afirma o médico Pietro Vanni, especialista em cannabis medicinal.

O sono REM, associado ao processamento emocional e à consolidação da memória, é um ponto sensível. “O uso do THC de forma contínua, sem a presença do CBD, altera a arquitetura do sono, reduzindo a fase REM. Já o uso do CBD em concentrações maiores do que o THC aparentemente tem um efeito protetor dessa alteração”, diz Vanni.

O que estudos recentes sugerem

As evidências ainda estão em desenvolvimento, mas pesquisas observacionais têm apontado melhora em parte dos pacientes. Um estudo publicado em agosto de 2025 no periódico PLOS Mental Health acompanhou 124 pessoas com insônia em tratamento com produtos à base de cannabis por até 18 meses. Os participantes relataram melhora sustentada do sono, além de redução de sintomas de ansiedade e depressão. Cerca de 9% mencionaram efeitos adversos, como fadiga e boca seca, sem registro de eventos graves.

Apesar do resultado, os próprios autores ressaltam a necessidade de ensaios clínicos maiores e controlados com placebo para confirmar eficácia, segurança e melhores protocolos.

Cuidados, efeitos colaterais e quem não deve usar

Segundo Vanni, a definição do produto e da proporção entre os canabinoides depende do perfil do paciente e de sua sensibilidade. Ele também alerta para erros comuns na prática: “Um erro comum é tomar a dose muito próximo da hora de dormir, sem considerar que os canabinoides por via oral podem levar entre uma e duas horas para atingir o efeito completo”.

O médico afirma que, em formulações com baixa quantidade de THC, os efeitos adversos tendem a ser limitados, com destaque para sonolência. Entre as contraindicações citadas por ele estão gestação, amamentação e arritmias cardíacas.

A discussão sobre dependência também entra no debate. “Para produtos com baixo teor de THC, a dependência aparentemente não existe. Em doses mais elevadas, ela é possível do ponto de vista farmacológico, mas na prática clínica não é algo que observo. Já o CBD não gera dependência nem tolerância”, afirma.

Especialistas reforçam que, diante de diferentes causas para a insônia – de ansiedade a doenças crônicas e hábitos de vida – a cannabis não deve ser vista como solução única. A recomendação é que qualquer uso seja feito com acompanhamento médico, especialmente para ajustar dose, horário e combinações que reduzam riscos e evitem piora da qualidade do sono.