Cirurgia do Aparelho Digestivo

Enxaqueca resistente: por que a dor não melhora e quais tratamentos podem ajudar

Casos em que as crises persistem apesar de remédios comuns exigem investigação mais completa e, em alguns pacientes, terapias modernas como Botox e medicamentos alvo do CGRP.

Por Redação Brazil Health , 16/06/2026

4 min de leitura

Enxaqueca resistente: por que a dor não melhora e quais tratamentos podem ajudar

Quando a enxaqueca vira rotina e os tratamentos tradicionais não funcionam, é comum o paciente sentir que chegou a um beco sem saída. O neurologista Marcelo Zalli explica que esse cenário, muitas vezes chamado de enxaqueca resistente ou refratária, não significa falta de esforço ou ausência de opções, mas sim a necessidade de uma estratégia mais precisa e acompanhamento especializado.

A enxaqueca está longe de ser apenas “uma dor de cabeça forte”. Trata-se de uma condição neurológica que pode afetar sono, humor, trabalho, vida social e produtividade. Em parte dos pacientes, as crises seguem frequentes mesmo após tentativas com medicamentos usados tanto para prevenir quanto para interromper as crises.

Nesse grupo estão pessoas que já testaram diferentes classes de tratamento por períodos prolongados e, ainda assim, não conseguiram controle adequado. “Quando nada parece funcionar, o problema nem sempre é a falta de tratamento, e sim um tratamento incompleto”, alerta Zalli.

Muito além da dor: o que costuma estar por trás

Na enxaqueca resistente, é comum haver crises frequentes, uso repetido de analgésicos e grande impacto no dia a dia. Além disso, muitos pacientes passam a conviver com medo constante de novas crises, piora do sono e aumento de ansiedade — fatores que, por si só, podem contribuir para um ciclo de piora da qualidade de vida.

Uma das razões para a falha terapêutica, segundo o especialista, é que nem sempre a enxaqueca é conduzida de forma estruturada. O uso irregular de medicações e, principalmente, o abuso de analgésicos podem manter a dor ou até agravá-la. Também podem existir fatores associados que passam despercebidos, como:

  • insônia e estresse crônico;
  • apneia do sono;
  • depressão e outros transtornos emocionais;
  • alterações hormonais.

“Pacientes com enxaqueca resistente não precisam apenas de ‘mais remédio’. Precisam de diagnóstico refinado, revisão do que já foi tentado e correção de fatores que estão sustentando as crises”, destaca Zalli.

A avaliação com especialista em cefaleia costuma ser decisiva justamente por organizar o quadro: checar se a dor é de fato enxaqueca, investigar se há cefaleia associada ao uso excessivo de medicação, identificar comorbidades (como distúrbios do sono e questões psiquiátricas) e definir a combinação terapêutica mais adequada para aquele perfil.

Tratamentos mais novos mudaram o cenário

Nos últimos anos, a prevenção da enxaqueca avançou com a chegada de medicamentos mais direcionados ao mecanismo da doença. Entre as principais novidades estão os anticorpos monoclonais que atuam na via do CGRP, uma molécula envolvida na enxaqueca. Diretrizes da European Headache Federation dão suporte ao uso dessa classe na prevenção, inclusive quando terapias convencionais não trouxeram boa resposta.

Outra opção já consolidada para enxaqueca crônica é a toxina botulínica tipo A. Ela é utilizada na profilaxia em adultos com enxaqueca crônica — quadro definido por 15 ou mais dias de dor de cabeça por mês, com crises que duram 4 horas ou mais por dia. O esquema de aplicação mais conhecido é o protocolo PREEMPT, que padroniza pontos de aplicação e ajudou a firmar essa estratégia para quem tem crises muito frequentes.

Isso não significa que todos os pacientes precisem dessas terapias, nem que elas substituam outras frentes do cuidado. Mas o cenário mudou: casos que antes pareciam sem saída hoje podem ter alternativas mais promissoras.

Para Zalli, a enxaqueca resistente continua sendo um desafio, mas não deve ser encarada como sentença. “Com avaliação especializada, combinação adequada de terapias e acesso às abordagens mais atuais, muitos pacientes conseguem reduzir crises, recuperar funcionalidade e voltar a viver com menos medo da próxima dor”, afirma.