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Dormir mal pode aumentar risco de depressão e ansiedade, apontam especialistas

Pesquisas relacionam poucas horas de sono a alterações no controle emocional; no Brasil, quase um terço dos adultos em capitais relata sintomas de insônia.

Por Redação Brazil Health , 16/03/2026

4 min de leitura

Dormir mal pode aumentar risco de depressão e ansiedade, apontam especialistas

Dormir pouco ou com qualidade ruim deixou de ser apenas um incômodo do dia seguinte e passou a ser tratado como um fator relevante para a saúde mental. Uma análise conduzida por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, reforça que a relação entre sono e bem-estar emocional é de mão dupla: noites mal dormidas aumentam o risco de ansiedade e depressão, e esses transtornos também podem piorar o sono.

Segundo o levantamento, a privação de sono, mesmo por períodos curtos, pode afetar áreas do cérebro ligadas ao controle emocional, aumentando irritabilidade, impulsividade e vulnerabilidade ao estresse. O trabalho aponta ainda associação com maior probabilidade de depressão e ansiedade em comparação com a população geral.

No Brasil, o problema é frequente. Dados do Ministério da Saúde indicam que 31,7% dos adultos que vivem em capitais apresentam ao menos um sintoma de insônia, e cerca de um em cada cinco brasileiros dorme menos de seis horas por noite. A recomendação mais adotada para adultos é de, no mínimo, sete horas.

“Hoje, tanto os estudos científicos quanto a prática clínica mostram que o sono é essencial para a saúde física e mental”, afirma Marcia Pradella Hallinan, neurologista do Núcleo de Medicina do Sono do Hospital Sírio-Libanês.

O que o corpo faz enquanto você dorme

Especialistas lembram que o sono não é um “desligamento” do organismo. “O sono é um processo fisiológico ativo. Durante esse período há recuperação de órgãos e tecidos, liberação de hormônios importantes para o metabolismo e o desenvolvimento, restituição do sistema de defesa e processamento das emoções”, explica o neurologista Lucio Huebra, do mesmo núcleo.

Huebra destaca que dormir mal afeta também a segurança e o desempenho no dia seguinte, com fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade e maior chance de erros e acidentes. Em prazos mais longos, a falta de sono se associa a maior risco de obesidade, diabetes, hipertensão, infarto e AVC, além de declínio cognitivo e transtornos mentais. “A longo prazo, o sono insuficiente está associado a maior risco de obesidade, diabetes, alterações do colesterol, hipertensão, infarto e AVC. Também há uma relação clara com transtornos mentais, especialmente ansiedade e depressão, além de aumento do risco de declínio cognitivo”, diz.

Nem todo mundo precisa dormir o mesmo número de horas

A necessidade de sono varia conforme genética e fase da vida. “Falamos em médias populacionais, mas cada indivíduo é único. Tem gente que funciona muito bem dormindo seis horas, enquanto outras pessoas precisam de nove, dez ou até mais. Isso não é anormal”, afirma Marcia. Para ela, além do relógio, o principal é observar o impacto no dia a dia, como humor, atenção e capacidade de aprender e trabalhar.

Em crianças e adolescentes, o sono tem papel importante no crescimento e no aprendizado. Já em adultos e idosos, noites ruins podem aparecer como piora do desempenho, alterações de humor e queixas de memória. “Muitas vezes recebemos pacientes mais velhos com esquecimento, e ao investigar percebemos que dormem mal há muito tempo, às vezes por um distúrbio do sono que nunca foi diagnosticado”, relata a neurologista.

Telas à noite e sinais de alerta

Entre os fatores que mais atrapalham o descanso está o uso de telas no período noturno. A exposição à luz pode interferir na produção de melatonina, hormônio ligado ao sono. “O cérebro precisa diferenciar claramente o dia da noite”, alerta Marcia.

Quando a dificuldade para dormir se torna frequente, a orientação é buscar avaliação médica, especialmente se houver sinais como sonolência diurna excessiva, queda de rendimento, alterações de comportamento ou ronco. “O ronco nunca é normal, em nenhuma fase da vida”, afirma Marcia. Para Huebra, atrasar o diagnóstico pode piorar o quadro: “Quanto antes houver orientação adequada, maiores as chances de evitar consequências que podem acompanhar a pessoa por toda a vida”.

Especialistas recomendam medidas práticas para melhorar a higiene do sono, como manter horários regulares, reduzir telas nas horas que antecedem dormir e evitar estimulantes no fim do dia. Em casos de insônia crônica, Huebra afirma que a terapia cognitivo-comportamental é considerada abordagem de primeira linha.