Urologia

Estudo revela mecanismo molecular ligado à surdez genética e à síndrome de Usher

Pesquisa apresentada no Institut Pasteur de São Paulo mostra como falhas em conexões microscópicas do ouvido interno podem levar à perda auditiva e, em alguns casos, à perda progressiva da visão.

Por Redação Brazil Health , 14/03/2026

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Estudo revela mecanismo molecular ligado à surdez genética e à síndrome de Usher

Pesquisadores avançaram na compreensão de como mutações genéticas podem causar perda auditiva ao mapear, em alta resolução, partes do maquinário molecular responsável por transformar vibrações sonoras em sinais elétricos. Os resultados foram apresentados pelo cientista Nicolas Wolff, do Institut Pasteur, em seminário realizado em 27 de fevereiro no Institut Pasteur de São Paulo, com apoio da USP.

A audição depende de células ciliadas localizadas na cóclea, no ouvido interno. Essas células têm pequenas projeções, os estereocílios, que precisam estar organizados e conectados de forma precisa para que o som seja captado e transmitido ao cérebro. Quando essas ligações se rompem ou se formam de maneira inadequada, o processo pode falhar e resultar em diferentes tipos de surdez.

O que são as conexões que podem falhar

Wolff apresentou dados sobre um conjunto de proteínas que participa de uma ligação temporária importante no desenvolvimento das células ciliadas, conhecida como ankle link. Essa conexão funciona como uma ponte de sustentação entre estereocílios enquanto a estrutura do “feixe” se forma, ajudando a garantir o alinhamento e a estabilidade necessários para o funcionamento correto da audição.

Alterações em proteínas envolvidas nesse complexo, como ADGRV1, whirlin e PDZD7, estão associadas à síndrome de Usher tipo 2, condição hereditária marcada por surdez desde o nascimento e perda progressiva da visão.

Segundo o pesquisador, a dimensão genética do problema é ampla. “Mais de 100 genes já foram associados à surdez neurossensorial”, afirmou Wolff, referindo-se ao tipo de perda auditiva ligada ao comprometimento das células sensoriais da cóclea ou do nervo auditivo.

ADGRV1: estrutura e impacto de mutações

Um dos focos do trabalho foi a proteína ADGRV1, para a qual a equipe descreveu uma estrutura em alta resolução em sua forma inativa, permitindo observar como a molécula se organiza na membrana celular e quais regiões são mais sensíveis a alterações.

“Nossos estudos mostraram que durante o desenvolvimento das células ciliadas, parte dessa proteína é clivada, mas a região responsável pela sinalização permanece ativa na célula madura”, disse Wolff. Para o pesquisador, o achado sugere que a ADGRV1 pode seguir atuando não apenas como suporte estrutural, mas também como reguladora após a maturação do ouvido interno.

O grupo também investigou uma região regulatória da molécula e como mudanças químicas, como a fosforilação, podem alterar sua conformação. De acordo com a apresentação, algumas mutações ligadas à surdez tornam essa área menos estável, o que pode prejudicar interações com proteínas envolvidas em sinalização dentro da célula.

Do laboratório ao tecido do ouvido interno

Além de análises com proteínas isoladas, os pesquisadores estudaram a distribuição dessas moléculas em tecido coclear de camundongos com microscopia de super-resolução. “As imagens revelaram diferenças na organização do complexo proteico entre células ciliadas internas, responsáveis pela detecção do som, e externas, que amplificam o som”, explicou Wolff.

A equipe também utilizou tomografia crioeletrônica em tecido intacto, técnica que permite observar estruturas biológicas muito próximas do estado natural. A expectativa é que, ao conectar detalhes “atômicos” às consequências funcionais de mutações, esse tipo de pesquisa ajude a esclarecer por que algumas alterações genéticas levam à perda auditiva progressiva e, em certos casos, à síndrome de Usher.