Esgotamento Emocional

Esgotamento de quem cuida: burnout cresce entre familiares e cuidadores

Estresse contínuo e falta de apoio elevam ansiedade e depressão em quem cuida; especialistas pedem pausas, revezamento e políticas públicas

Por Redação Brazil Health , 18/11/2025

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Esgotamento de quem cuida: burnout cresce entre familiares e cuidadores

O burnout deixou o escritório e entrou em casa. A sobrecarga de familiares e cuidadores de idosos, pessoas com deficiência e doentes crônicos acende um alerta de saúde pública em um país que envelhece rapidamente.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) indicam que as mulheres fazem quase 80% do trabalho de cuidado não remunerado no Brasil. São mais de 7 milhões de pessoas com algum grau de dependência funcional, em sua maioria assistidas por familiares, especialmente mulheres de 35 a 60 anos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cuidadores informais têm 60% mais risco de desenvolver ansiedade ou depressão do que a população geral.

“O burnout do cuidador nasce no acúmulo: na falta de descanso, na culpa por se irritar, na sensação de não poder parar. O corpo e a mente cobram essa conta”, afirma a psicóloga Roberta Passos, especialista em Neuropsicologia pelo IPQ-FMUSP.

Para ela, o desgaste é ainda mais intenso quando o vínculo é familiar. “Quando o cuidador é o filho, o marido ou a esposa, a relação de afeto se mistura com o dever. A exaustão passa a ser vivida em silêncio, como se fosse uma falha moral”, diz.

Sinais que pedem atenção

Os sintomas costumam aparecer de forma discreta: cansaço extremo, lapsos de memória, irritabilidade, insônia, dores de cabeça e sensação de incapacidade.

“O cuidador vive em estado de alerta permanente. Ele dorme pensando no outro e acorda com medo de que algo aconteça. Essa vigilância contínua drena energia emocional”, explica Passos.

Levantamento da Fiocruz (2023) com cuidadores de pessoas com Alzheimer mostrou quase 70% com sinais de depressão e esgotamento emocional. Quatro em cada dez relataram problemas físicos ligados ao estresse, como hipertensão, gastrite e enxaqueca.

“É uma situação invisível porque o cuidado ainda é romantizado. A sociedade aplaude quem se dedica ao outro, mas raramente oferece estrutura para dividir esse peso”, acrescenta a psicóloga.

Impacto no cuidado e na família

O esgotamento não afeta só a saúde mental de quem cuida. Ele aumenta a chance de erros com medicação, favorece explosões de irritação e empurra para o isolamento social, o que compromete o vínculo com a pessoa assistida.

“Isso fragiliza a relação e retroalimenta o ciclo da culpa. O que começou como amor vira uma rotina de sobrevivência”, resume Passos.

Saídas possíveis

Especialistas defendem reconhecer o cuidado como trabalho — com pausas, revezamentos e divisão clara de tarefas na família. “Pedir ajuda não é fraqueza, é uma forma de preservar o vínculo e a própria saúde mental”, diz a psicóloga.

Ela também cobra que políticas públicas incluam o cuidador na rede de atenção psicossocial, com acesso a orientação, grupos de apoio e descanso programado.

“Precisamos parar de enxergar o cuidador como extensão do paciente. Ele também precisa ser olhado, escutado e acolhido. Cuidar de quem cuida é investimento social”, afirma.

Com o envelhecimento populacional, a pressão tende a aumentar. Passos lembra que reconhecer o cansaço não é ingratidão. “Cuidar é um ato de amor, mas até o amor exige descanso.”