Pacientes com insônia recorrem à cannabis medicinal; médicos alertam para uso criterioso
Distúrbio do sono é frequente entre brasileiros e leva pacientes a buscar novas abordagens; especialistas lembram que evidências ainda são recentes e o uso exige acompanhamento.
Por Redação Brazil Health , 27/04/2026
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A insônia deixou de ser uma queixa pontual e passou a ser tratada como um problema de saúde pública. O distúrbio é marcado pela dificuldade de iniciar ou manter o sono, ou por acordar sem sensação de descanso, com impacto direto no humor, na concentração e no desempenho do dia a dia.
No Brasil, entre 30% e 50% dos adultos relatam algum grau de insônia, segundo a Associação Brasileira do Sono. A condição costuma aparecer associada a fatores como ansiedade, dor crônica e estresse persistente, o que amplia o desafio do tratamento.
Com esse cenário, cresce o interesse por alternativas como a cannabis medicinal. Um ensaio clínico randomizado publicado no Journal of Sleep Research apontou melhora na qualidade do sono em parte dos participantes após o uso de formulações à base de cannabis, embora especialistas ressaltem que a literatura ainda é recente e deve ser interpretada com cuidado.
O que a ciência sugere até agora
Estudos com combinações de canabinoides, como THC, CBD e CBN, têm investigado efeitos em pontos como o tempo para pegar no sono, a manutenção do sono durante a noite e a sensação de descanso ao acordar. Pesquisas também avaliam possíveis relações com mecanismos do ciclo do sono, incluindo processos ligados à melatonina.
Para médicos que trabalham com a abordagem, a melhora pode ocorrer mais por reduzir sintomas associados do que por atuar como um indutor direto do sono. “O paciente dorme melhor porque reduz ansiedade, dor ou estado de alerta elevado. O canabidiol atua como modulador do sistema nervoso, não como um sedativo direto”, afirma o clínico-geral Adam Alborta, que atua com cannabis medicinal.
Segundo ele, a composição do produto pode mudar o efeito percebido. “O CBD isolado costuma apresentar efeito mais leve, enquanto produtos que combinam outros canabinoides, especialmente o THC, tendem a ter impacto mais perceptível na indução e manutenção do sono”, diz.
Para quem pode fazer sentido e quais os limites
Na avaliação do médico, a indicação tende a ser mais considerada quando a insônia está ligada a outras condições. “O uso da cannabis medicinal é mais indicado quando a insônia está associada a outras condições, como ansiedade, dor crônica ou estresse. Nesses casos, a melhora do sono ocorre como consequência do equilíbrio desses fatores”, explica Alborta.
Ele ressalta que não se trata de uma alternativa para quem busca efeito imediato semelhante ao de hipnóticos tradicionais e que o tratamento não substitui a investigação das causas do distúrbio. “Também requer cautela em grupos específicos, como gestantes, idosos frágeis e pessoas com histórico de dependência ou transtornos psiquiátricos”, afirma.
Demanda cresce, mas expectativa precisa ser ajustada
O aumento da procura aparece tanto em consultórios quanto no relato de estabelecimentos que atendem pacientes com prescrição. Michele Farran, sócia da Cannabis Company, afirma que a queixa é comum entre quem busca orientação. “Hoje, cerca de 70% das pessoas que nos procuram relatam dificuldades relacionadas ao sono. Na maioria dos casos, a insônia vem acompanhada de ansiedade ou estresse”, diz.
Entre especialistas, a mensagem central é que a cannabis medicinal não deve ser tratada como solução única. “O principal equívoco é esperar um efeito imediato. Na prática, a melhora tende a ser gradual e mais consistente ao longo do tempo, como parte de uma abordagem mais ampla”, conclui Alborta.
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