Dermatologia

Por que pessoas aparentemente saudáveis sofrem morte súbita no esporte

O cardiologista Carlos Alberto Pastore analisa a relação entre esforço físico intenso, doenças cardíacas não diagnosticadas e os raros eventos que levam atletas e praticantes recreativos a colapsos durante a atividade esportiva.

Por Redação Brazil Health , 22/06/2026

5 min de leitura

Por que pessoas aparentemente saudáveis sofrem morte súbita no esporte

Quando um atleta cai em campo ou um corredor desaba perto da linha de chegada, a expressão “morte súbita” costuma dominar as manchetes. Mas a ideia de que o coração para “do nada” nem sempre corresponde ao que ocorre na prática. O cardiologista Carlos Alberto Pastore explica que, na maioria dos casos, há uma condição pré-existente, muitas vezes sem sintomas, que se manifesta de forma abrupta em um momento de grande estresse para o organismo.

Na medicina, a morte súbita cardíaca é definida como uma morte inesperada que acontece, em geral, até uma hora após o início dos sintomas, provocada por uma arritmia grave. Nessas situações, alterações elétricas como fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular impedem o coração de bombear sangue de maneira eficaz, levando à perda de consciência e, sem atendimento imediato, ao óbito.

“O termo pode passar a impressão de imprevisibilidade total, mas frequentemente existe uma doença silenciosa por trás do evento”, afirma Pastore.

Quando o exercício expõe um problema oculto

A atividade física regular está entre os principais hábitos de proteção cardiovascular. Ainda assim, em situações específicas, o esforço intenso pode funcionar como gatilho para revelar doenças do coração que não haviam sido diagnosticadas.

Em treinos e competições de alta intensidade, o corpo passa por mudanças importantes: a frequência cardíaca e a pressão arterial sobem, há maior liberação de adrenalina e aumenta a demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco. Se houver uma alteração estrutural ou elétrica, esse cenário pode facilitar o surgimento de arritmias potencialmente fatais.

Apesar do impacto emocional e da grande repercussão desses episódios, eles são raros. Estudos internacionais estimam que a incidência de morte súbita associada ao esporte fique entre 1 e 3 casos por 100 mil atletas por ano — com variações conforme país e método de análise, indo de 0,5 a 13 por 100 mil. Na população geral, eventos ligados à atividade física são ainda mais incomuns, com cerca de 4 a 5 casos por milhão de pessoas ao ano.

Causas mudam com a idade

As origens mais comuns da morte súbita durante o esporte variam conforme a faixa etária.

Entre atletas com menos de 35 anos, predominam doenças cardíacas estruturais ou genéticas. Nesse grupo, aparecem com frequência a cardiomiopatia hipertrófica (apontada como principal causa), a cardiomiopatia arritmogênica, anomalias das artérias coronárias e doenças elétricas, como a síndrome do QT longo.

A cardiomiopatia hipertrófica, por exemplo, pode passar despercebida por anos. Estima-se que esteja presente em cerca de 1 a cada 500 pessoas e, em alguns casos, só dá sinais durante um esforço intenso.

Após os 35 ou 40 anos, o panorama muda: a principal causa passa a ser a doença coronariana, marcada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias que irrigam o coração. Nessas situações, um exercício muito intenso pode desencadear infarto ou arritmias graves.

Endurance e o risco nas provas de alta exigência

Maratonas, provas de triatlo de longa distância, ciclismo prolongado e montanhismo em altitude são exemplos de modalidades que impõem um desafio fisiológico extremo. Nelas, o coração trabalha intensamente por longos períodos.

Em maratonas, o risco estimado de morte súbita é de aproximadamente 1 caso para cada 50 mil participantes ao longo da vida esportiva. Mesmo sendo uma probabilidade baixa, episódios seguem sendo registrados em diferentes países, muitas vezes nos momentos finais da prova ou logo após a chegada.

Um ponto importante é que a maioria dessas ocorrências não envolve atletas profissionais. Levantamentos indicam que mais de 90% das mortes súbitas relacionadas ao esporte acontecem em atividades recreativas — como corrida de rua, futebol amador, ciclismo ou trilhas.

Para Pastore, isso ajuda a explicar parte do problema: profissionais tendem a passar por avaliações periódicas e acompanhamento contínuo, enquanto praticantes recreativos frequentemente aumentam a carga de esforço sem uma triagem cardiovascular prévia. “Antes de desafios muito intensos, a avaliação adequada deixa de ser detalhe e vira uma medida de segurança”, alerta o cardiologista.

Como a avaliação médica pode reduzir o risco

A triagem cardiovascular antes da prática esportiva é uma das principais estratégias de prevenção, com o objetivo de identificar doenças silenciosas que podem se tornar perigosas em atividades de alta intensidade.

Entre os exames mais utilizados estão:

  • avaliação clínica detalhada;
  • eletrocardiograma;
  • ecocardiograma;
  • teste ergométrico.

Em situações específicas, podem ser indicados exames mais avançados, como ressonância magnética cardíaca ou monitoramento prolongado do ritmo do coração.

Há exemplos internacionais de impacto com programas estruturados. Na Itália, a obrigatoriedade do eletrocardiograma para atletas competitivos foi associada, ao longo de décadas, a uma redução relevante na incidência de morte súbita em esportistas.

No fim, embora raros, esses episódios chamam atenção por envolverem, não raramente, pessoas jovens e aparentemente saudáveis, e por acontecerem em locais públicos, diante de outras pessoas. Para a cardiologia, no entanto, o evento costuma ter uma explicação: uma condição preexistente que só se revela no momento de maior exigência do corpo.