Assédio e Violência

Assédio em hospitais afasta médicas e custa talentos ao sistema de saúde

Levantamentos no Brasil e no exterior ligam assédio à evasão e adoecimento de profissionais; especialistas cobram protocolos, acolhimento e punição efetiva.

Por Redação Brazil Health , 11/12/2025

3 min de leitura

Assédio em hospitais afasta médicas e custa talentos ao sistema de saúde

A violência e o assédio no trabalho seguem como um gargalo para a permanência de mulheres na saúde. Revisões apontam prevalência alta entre médicas, enfermeiras e parteiras, com efeitos que vão do sofrimento emocional à desistência de carreiras inteiras.

Uma revisão na The Lancet Global Health estimou que mais de 70% das profissionais já sofreram algum tipo de violência ocupacional. Os impactos ultrapassam o consultório: há queda de produtividade, insegurança para liderar equipes e maior intenção de deixar áreas competitivas.

Ciclo de abuso e evasão de talentos

Artigo liderado pela Profa. Dra. Marise Samama, publicado na Human Resources for Health, identifica que hierarquias rígidas e padrões de abuso normalizados elevam o risco de violência psicológica e sexual, agravado pela ausência de protocolos claros de denúncia. “O assédio mina a confiança, corrói a liderança feminina e empurra profissionais talentosas para fora de áreas competitivas. Sem ambiente seguro, não há equidade”, afirma.

No Brasil, uma pesquisa da FMUSP mostrou que 55% das médicas residentes relataram assédio moral e 28% assédio sexual durante a formação, com forte subnotificação por medo de retaliação. Levantamento da Fiocruz apontou que 76% das trabalhadoras da saúde sofreram violência psicológica, especialmente humilhações e intimidações.

Estudo do NIH e da AAMC indica que médicas têm o dobro de chance de abandonar posições acadêmicas quando expostas a hostilidade, além de relatarem menor confiança na liderança e migração para campos menos disputados.

Residência médica sob pressão

A cultura hierárquica e jornadas extenuantes dificultam denúncias e favorecem a tolerância ao abuso como parte da “formação dura”. Para Samama, essa normalização é corrosiva: “Naturalizar o abuso como parte da formação médica é uma falha institucional grave. Violência não forma caráter. Só gera exaustão e desistência.”

No cenário internacional, estudo no BMJ Open mostrou que jovens médicas assediadas têm até 50% mais chance de abandonar especialidades cirúrgicas, aprofundando desigualdades e reduzindo diversidade e inovação em áreas estratégicas.

Caminhos para mudar a cultura

Entidades do setor defendem que a virada depende de governança: prevenção ativa, responsabilização e transparência. “É preciso responsabilização. Sem consequências claras, a cultura não muda. E sem cultura segura, perdemos lideranças femininas que o sistema levou anos para formar”, diz Samama.

Entre as medidas defendidas por entidades e especialistas, destacam-se:

  • Protocolos obrigatórios de prevenção e treinamentos periódicos para todas as equipes
  • Canais independentes de denúncia e indicadores públicos de casos, com proteção ao sigilo
  • Apoio psicológico gratuito e política de tolerância zero a condutas abusivas
  • Programas de mentoria e redes de apoio para reduzir isolamento e fortalecer a denúncia

Segundo a OMS, serviços que adotam suporte formal registram aumento de 40% nas notificações de violência ocupacional e resolvem casos em menos tempo, sinalizando maior confiança institucional.

Para acelerar a mudança, a AMCR prepara um guia prático com fluxos de acolhimento e denúncia, modelos de protocolos, métricas de acompanhamento e orientação sobre comunicação segura com vítimas.

“Assédio não é efeito colateral da alta performance. É falha de governança. Cuidar de quem cuida é prioridade ética e de gestão”, conclui Samama.