Clínica Médica

Intestino saudável mente equilibrada a conexão entre microbiota cérebro e imunidade

Entenda por que o intestino é chamado de segundo cérebro e como cuidar dele pode proteger sua mente e o corpo inteiro.

Por Redação Brazil Health , 13/11/2025

6 min de leitura

Intestino saudável mente equilibrada a conexão entre microbiota cérebro e imunidade

É fato que existe uma relação crucial entre saúde digestiva e bem-estar mental, sendo o intestino considerado nosso segundo cérebro. Muitos podem perguntar: 'Mas como isso é possível?' A resposta é muito clara: sim, é mais do que possível; é realidade!

Aprendemos, desde os bancos escolares, que temos o intestino delgado com a função principal de absorver os nutrientes necessários à nossa vida, e o intestino grosso com a função de absorção de água. Ambos têm formato de tubo, medindo cerca de 10 metros de comprimento. E ficamos por aí. Porém, as funções dos nossos intestinos vão muito além disso e são parte importante do eixo cérebro-intestino.

Sabemos que o intestino possui um sistema nervoso com a impressionante quantidade de mais de 100 milhões de neurônios, concentra cerca de 70% das células do sistema imunológico e produz mais de 30 neurotransmissores. O órgão também é responsável pela produção e pelo armazenamento de 50% da dopamina, ligada ao humor, ao aprendizado e à memória, e de 95% da serotonina, ligada ao sono, ao apetite, à digestão e à função cognitiva. Portanto, quando há queda no nível desses neurotransmissores, a saúde física, mental e as emoções ficam comprometidas, além de ocorrer maior vulnerabilidade a doenças imunológicas e mentais.

Nosso bem-estar geral está diretamente relacionado ao funcionamento do intestino. Se ele não estiver funcionando adequadamente, podem ser desencadeadas não apenas alterações gastrointestinais, como também transtornos emocionais e psiquiátricos. Diferentemente de qualquer outro órgão do corpo, nosso intestino pode funcionar sozinho. Ele tem autonomia para tomar decisões e não precisa que o cérebro lhe diga o que fazer.

O que 'governa' o intestino é o chamado sistema nervoso entérico (SNE), uma sucursal do sistema nervoso autônomo do corpo, responsável por controlar diretamente o sistema digestivo. Esse sistema nervoso se estende pelo tecido que reveste o estômago e todo o trato digestivo e possui seus próprios circuitos neurais.

Mas, para que tudo funcione, ele precisa de uma microbiota perfeita (antigamente conhecida como flora intestinal), que é um conjunto de microrganismos (bactérias, vírus, fungos e protozoários) que, para espanto de alguns, vivem no intestino humano em harmonia com o nosso corpo, ajudando-nos em diversos processos físicos e emocionais.

O papel central da microbiota intestinal

Trata-se de uma comunidade complexa de mais de 100 trilhões de microrganismos de mais de mil espécies, com um peso estimado entre 1 e 2 kg, cerca de 3 a 10 vezes o número de nossas próprias células.

Somos 90% micróbios e 10% humanos (10 trilhões de células para 100 trilhões de microrganismos). Eles vivem em harmonia com o hospedeiro, contribuindo para o bem-estar do nosso organismo.

A microbiota tem inúmeras funções cruciais:

  • Defesa contra microrganismos patogênicos.
  • Fortalecimento do sistema imunológico.
  • Auxílio na digestão de fibras e na extração de energia dos alimentos.
  • Favorecimento da absorção de minerais (como magnésio, cálcio e ferro).
  • Síntese de vitaminas essenciais (como vitamina K e do complexo B) e aminoácidos.
  • Regulação do apetite e da saciedade.
  • Influência direta no comportamento e no humor por meio de vias neurais, endócrinas e imunológicas.

Caso o funcionamento da microbiota seja alterado, instala-se um processo de disbiose.

Disbiose: desequilíbrio e suas consequências

A disbiose intestinal é definida como um desequilíbrio na microbiota, caracterizado pela alteração na quantidade e na diversidade de bactérias, com aumento de microrganismos prejudiciais. Esse estado pode causar inflamação, reduzir a capacidade de absorção de nutrientes e impactar negativamente a saúde.

As causas mais comuns da disbiose são:

  • Uso excessivo de antibióticos;
  • Consumo elevado de alimentos ultraprocessados, embutidos, farináceos, gorduras saturadas, sal e açúcar;
  • Tabagismo e consumo de álcool;
  • Estresse crônico;
  • Sedentarismo;

Sintomas e doenças associadas

A disbiose manifesta-se com sintomas gastrointestinais (distensão abdominal, alternância entre diarreia e constipação, fezes malformadas) e sistêmicos (cansaço, cefaleia, candidíase de repetição, ansiedade, depressão e problemas de concentração).

A persistência do desequilíbrio pode levar à maior vulnerabilidade ou à progressão de condições graves, como:

  • Doenças inflamatórias intestinais (síndrome do intestino irritável, doença de Crohn);
  • Doença celíaca e intolerância à lactose;
  • Doenças autoimunes (artrite, lúpus) e metabólicas (diabetes tipo 2, obesidade);
  • Doenças neurodegenerativas (doença de Parkinson, demência de Alzheimer);
  • Alguns tipos de câncer, principalmente o colorretal;

Estratégias para a saúde intestinal

O manejo e a prevenção da disbiose focam na adoção de um estilo de vida saudável e no uso de suplementos específicos:

1. Estilo de vida e alimentação:

  • Adoção de uma dieta diversificada, rica em fibras (frutas, verduras, grãos integrais, oleaginosas, sementes);
  • Inclusão de alimentos fermentados (iogurtes, kefir, kombucha);
  • Prática regular de exercício físico;
  • Hidratação adequada;
  • Gerenciamento do estresse e sono de qualidade;

2. Suplementação específica:

  • Probióticos: microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefício à saúde do hospedeiro, reequilibrando a microbiota e fortalecendo a barreira intestinal. Estão presentes em leites fermentados, iogurtes, kefir ou na forma de cápsulas e pós;
  • Prebióticos: componentes alimentares não digeríveis que estimulam seletivamente o crescimento e a atividade de bactérias benéficas no cólon. Encontrados em alimentos como cebola, alho, banana, aveia e aspargos;

Em casos graves e refratários, como a colite pseudomembranosa por Clostridium difficile, o transplante de microbiota fecal (TMF) — a transferência de fezes de um doador saudável — é uma opção terapêutica com resultados promissores.

O transplante de fezes também parece ser promissor no tratamento de outras doenças, como síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal, como a doença de Crohn, obesidade, doenças mentais como doença de Parkinson e Alzheimer e até autismo.

Para finalizar, deixo aqui dois conselhos:

  • Descasque mais, desembale menos;
  • Pense no seu microbioma como um animal de estimação: ele precisa ser alimentado diariamente.

Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR).