Clínica Médica

Arrotos em excesso podem ser um sinal do impacto da ansiedade e da vida acelerada no corpo

Distensão abdominal, excesso de gases e sensação constante de estômago estufado podem estar ligados à aerofagia, condição cada vez mais associada ao estresse e aos hábitos modernos

Por Dr. Alfredo Salim Helito , 20/06/2026

5 min de leitura

Arrotos em excesso podem ser um sinal do impacto da ansiedade e da vida acelerada no corpo

Sensação constante de barriga cheia, estômago estufado, excesso de gases e arrotos frequentes. Para muita gente, esses sintomas logo são associados à gastrite, refluxo ou intolerância alimentar. Mas existe uma condição extremamente comum, ainda pouco conhecida e cada vez mais observada nos consultórios: a aerofagia.

O nome significa literalmente “engolir ar”. Embora pareça algo simples, o problema pode provocar desconforto intenso e impactar significativamente a qualidade de vida. E o mais curioso é que, em muitos casos, a origem não está apenas no aparelho digestivo, mas na forma como vivemos hoje.

A rotina acelerada, o excesso de estímulos, a ansiedade constante e até o hábito de fazer refeições olhando o celular ou trabalhando acabam alterando a mastigação e a respiração sem que a pessoa perceba.

Hoje, muita gente come rápido, fala enquanto mastiga, respira de forma superficial e permanece em estado contínuo de tensão. O corpo responde a isso. E o sistema digestivo costuma ser um dos primeiros a manifestar sinais.

A medicina mudou a forma de entender o problema

Durante muitos anos, pacientes com excesso de arrotos e distensão abdominal eram tratados quase exclusivamente como portadores de refluxo, gastrite ou excesso de gases. Nos últimos anos, porém, estudos passaram a mostrar que muitos desses quadros estão ligados aos chamados distúrbios da interação intestino-cérebro.

Isso significa que fatores emocionais, padrões respiratórios inadequados e comportamentos involuntários têm participação direta nos sintomas digestivos.

Uma revisão recente publicada no periódico Clinical Gastroenterology and Hepatology mostrou que muitos pacientes desenvolvem um padrão repetitivo de ingestão de ar relacionado à ansiedade, hipervigilância corporal e alterações respiratórias.

Existe inclusive uma condição chamada arroto supragástrico. Nesse caso, o ar não vem do estômago. O paciente acaba “sugando” rapidamente o ar para o esôfago e expulsando logo em seguida, num movimento quase involuntário que pode se repetir dezenas ou até centenas de vezes ao longo do dia.

Exames modernos, como a impedanciometria esofágica e a manometria de alta resolução, hoje conseguem identificar exatamente esse mecanismo.

Barriga estufada virou uma das maiores queixas dos consultórios

A distensão abdominal se tornou uma das reclamações gastrointestinais mais frequentes da atualidade. Estudos internacionais mostram que entre 10% e 30% da população relata sintomas frequentes de estufamento, gases ou desconforto abdominal.

Em muitos pacientes, porém, os exames tradicionais aparecem normais, o que aumenta a frustração e a sensação de que “ninguém descobre o que eu tenho”.

O problema é que nem sempre o excesso de ar está relacionado à produção de gases pelo intestino. Muitas vezes, ele é literalmente ingerido ao longo do dia.

Entre os principais gatilhos estão:

• refeições rápidas• ansiedade e estresse• bebidas gaseificadas• uso excessivo de chicletes• tabagismo• respiração pela boca• apneia do sono• uso constante de canudos• hábito de falar muito durante as refeições

Pacientes bariátricos também vêm chamando atenção em estudos recentes. Pesquisas mostram aumento de sintomas de aerofagia e arrotos excessivos principalmente após cirurgias do tipo sleeve gástrico.

O tratamento vai muito além dos remédios

Um dos pontos mais importantes é entender que nem sempre a solução está em mais medicamentos. Em muitos casos, os melhores resultados aparecem justamente quando o tratamento inclui mudanças comportamentais.

Comer mais devagar, mastigar adequadamente, reduzir bebidas gaseificadas e melhorar o padrão respiratório podem trazer melhora significativa.

A respiração diafragmática, por exemplo, vem sendo cada vez mais estudada e já apresenta bons resultados em pacientes com arrotos excessivos e distensão abdominal funcional.

Dependendo da intensidade dos sintomas, o tratamento pode envolver uma abordagem multidisciplinar com clínico geral, gastroenterologista, psicólogo, fonoaudiólogo e fisioterapeuta respiratório.

O mais importante é que sintomas persistentes não sejam banalizados. Nem toda barriga estufada é apenas “má digestão”. Em muitos casos, o corpo está simplesmente manifestando, através do sistema digestivo, o impacto silencioso da ansiedade e da velocidade da vida moderna.

Dr. Alfredo Salim Helito – CRM/SP 43163 | RQE 132808

Clínica Médica

Membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês

Membro da retaguarda do pronto atendimento do Hospital Sírio-Libanês

Head Nacional de Clínica Médica da Brazil Health.

Referências:

• Bredenoord AJ, et al. Supragastric belching and aerophagia: modern insights into behavioral esophageal disorders. Clinical Gastroenterology and Hepatology, 2025.

• American Gastroenterological Association (AGA). Clinical Practice Update on Belching, Bloating and Distention Disorders, 2023.

• Kessing BF, et al. Aerophagia and supragastric belching: pathophysiology, diagnosis and treatment. Neurogastroenterology & Motility.

• Hemmink GJM, et al. Behavioral therapy for supragastric belching: randomized clinical study. Gastroenterology.