Saúde da Mulher

Brasil perto de vencer o câncer do colo do útero: por que agora é a hora

Com vacinas e exames certos, o Brasil pode eliminar a doença em uma geração, diz a ginecologista Dra. Ana Maria Andrade.

Por Redação Brazil Health , 16/02/2026

4 min de leitura

Brasil perto de vencer o câncer do colo do útero: por que agora é a hora

O câncer do colo do útero continua a evidenciar as desigualdades no acesso à saúde. Embora seja amplamente evitável e apresente altas chances de cura quando diagnosticado precocemente, ainda está entre as principais causas de morte por câncer entre mulheres, sobretudo em países de baixa e média renda, onde o acesso à informação, à vacinação, aos exames de rastreamento e ao tratamento permanece desigual.

Mais de 85% dos casos e óbitos concentram-se em nações com menor renda e atinge, em especial, mulheres jovens, com baixa escolaridade e residentes em regiões rurais ou periferias urbanas. A distribuição da doença acompanha as fragilidades estruturais dos sistemas de saúde e a dificuldade de implementação de políticas públicas duradouras.

Em 2020, a Organização Mundial da Saúde lançou a Estratégia Global para Acelerar a Eliminação do Câncer do Colo do Útero, construída em parceria com a União Internacional para o Controle do Câncer. O plano estabelece metas objetivas para 2030: vacinar 90% das meninas até os 15 anos, garantir que 70% das mulheres realizem testes de alta precisão ao longo da vida e tratar 90% das que apresentarem lesões precursoras ou doença confirmada.

O parâmetro internacional para considerar a enfermidade eliminada como problema de saúde pública é atingir taxa anual inferior a quatro casos por 100 mil mulheres. Projeções publicadas na revista The Lancet indicam que o cumprimento das metas pode evitar centenas de milhares de mortes nas próximas décadas e reduzir de forma expressiva a incidência global ao longo do século.

Avanços e desafios no Brasil

No campo da imunização, o Brasil apresenta desempenho relevante. Dados oficiais apontam que desde 2024 a cobertura vacinal contra o HPV supera 82% entre meninas de 9 a 14 anos e alcança cerca de 67% entre meninos da mesma faixa etária. Os índices situam o país acima da média global e refletem a estrutura consolidada do Programa Nacional de Imunizações, que assegura oferta gratuita da vacina.

Experiências regionais também demonstram potencial de ampliação do acesso. No Piauí, o projeto Atendimento Médico Especializado Itinerante, realizado em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí e com o Instituto de Desenvolvimento do Nordeste, levou rastreamento para áreas com menor cobertura assistencial. Em menos de seis meses, foram realizados cerca de 10 mil atendimentos voltados à detecção precoce do câncer do colo do útero, além de outras neoplasias. A iniciativa evidencia o impacto da descentralização e da busca ativa.

Ainda assim, a meta de 90% de cobertura vacinal para ambos os sexos não foi alcançada. O Ministério da Saúde prorrogou até o primeiro semestre de 2026 as ações de resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos, com o objetivo de ampliar a proteção coletiva.

A incidência da doença continua elevada. O Instituto Nacional de Câncer estima aproximadamente 17 mil novos casos anuais no triênio 2023 a 2025. O tumor permanece entre os três mais frequentes entre mulheres no país, atrás apenas do câncer de mama e do colorretal, desconsiderando o de pele não melanoma. Os números reforçam a necessidade de expandir o uso de testes de DNA-HPV, que apresentam maior sensibilidade que o exame citopatológico tradicional, além de garantir acesso rápido ao tratamento.

Uma meta factível

A eliminação do câncer do colo do útero como problema de saúde pública deixou de ser hipótese distante. Vacinação em larga escala, rastreamento com tecnologia adequada e tratamento oportuno formam um conjunto de medidas capazes de alterar de maneira estrutural o panorama da doença.

O Brasil dispõe de um sistema público de saúde com capilaridade nacional e de um programa de imunização reconhecido internacionalmente. A consolidação das metas propostas internacionalmente depende de continuidade administrativa, financiamento estável e enfrentamento das desigualdades regionais. Mantido o compromisso, o país pode reduzir de forma substancial a mortalidade nas próximas décadas e aproximar-se da eliminação da doença ainda na vida das jovens brasileiras de hoje.

*Dra. Ana Maria Andrade é médica, com especialização em ginecologia e obstetrícia.