Governo destina R$ 60 milhões a pesquisas sobre endometriose, mas desafio persiste
A radiologista Dr. Karina Giassi analisa o investimento anunciado e aponta onde estão os maiores gargalos para acelerar o diagnóstico e melhorar o cuidado no SUS.
Por Karina Giassi, 28/07/2026
5 min de leitura
O Governo Federal, em parceria com o Instituto Alana, anunciou em junho um investimento inédito de 60 milhões de reais em pesquisas envolvendo endometriose e saúde menstrual. Uma pequena vitória que as mais de 8 milhões de mulheres que sofrem dessa doença podem vir a comemorar em alguns anos.
O que foi amplamente divulgado e interpretado como um esforço massivo do governo em transformar o panorama da saúde das mulheres afetadas pela endometriose (que, como se sabe, correspondem a 10 a 15 por cento das mulheres) deve ser avaliado com muita cautela. Sim, é a primeira vez que se destina um montante de dinheiro específico à saúde menstrual. Mas o impacto disso está longe de ser conhecido.
O dinheiro destinado a esse programa será distribuído em três frentes:
- apoio à pesquisa científica e a estudos de desenvolvimento de tecnologias para entender e tratar a endometriose, dor pélvica e saúde menstrual, via CNPq;
- apoio a centros de pesquisa, com fomento a universidades, laboratórios e ONGs, para formarem uma rede nacional que integre dados de pesquisas sobre endometriose;
- qualificação do SUS, implicando uma conexão entre a pesquisa científica e o atendimento da rede pública de saúde, com o objetivo de acelerar o tempo de diagnóstico e melhorar a forma de tratamento da doença.
A princípio, a vasta maioria do montante (R$ 50 milhões) será destinada ao CNPq.
O que o investimento pode (e não pode) mudar
É lindo na teoria. Mas, como educadora, pesquisadora e atuante no diagnóstico precoce de adolescentes e adultas com endometriose, é fácil perceber que, a depender do destino do dinheiro, o impacto na saúde de muitas das mulheres que usam o SUS será, no mínimo, tardio.
Pesquisas em endometriose são absolutamente necessárias. O entendimento do padrão de doença na população brasileira e os desfechos numéricos do atraso de diagnóstico, sem dúvida, devem ser mapeados para que se implementem políticas públicas dirigidas para a população.
Mas, numa doença como a endometriose, temos alguns fatos já estabelecidos mundialmente e que não variam entre diferentes populações. Há muitos dados na literatura que mostram que a endometriose é homogênea, e se apresenta da mesma forma em populações europeias, australianas, indianas, chinesas e americanas. Esses dados são tão conhecidos que já se permite montar um plano de atuação para a redução das consequências da doença.
O atraso no diagnóstico e suas consequências
A endometriose tem, em média, um atraso diagnóstico de 7 a 10 anos. Ela começa, na maioria das vezes, na adolescência, já na primeira menstruação. O grande marco do começo da doença são as cólicas incapacitantes, que levam a adolescente a ter sucessivas faltas na escola. À medida que os anos passam e não há diagnóstico, a doença pode assumir alguns comportamentos: causar dor crônica incapacitante, inclusive com dor na relação sexual, piorando drasticamente a qualidade de vida da adulta jovem; pode crescer e atingir órgãos localizados na pelve (mais comumente) ou órgãos distantes da pelve – e causar sintomas totalmente inespecíficos e variados, que vão levar a mulher a procurar numerosos serviços de saúde; e, além disso, causar infertilidade.
De fato, o que ainda não se sabe é como cada menina vai apresentar a doença. Ainda não conseguimos sugerir o comportamento da doença no momento do diagnóstico. Mas sabemos que a melhor maneira de impedir as consequências da doença é diagnosticar o mais cedo possível.
Por isso, urge mapear justamente as deficiências do nosso sistema de saúde no diagnóstico precoce dessas meninas. Por que deixamos passar tanto tempo do primeiro sintoma ao diagnóstico? Onde estão os gargalos do sistema de saúde em que podemos intervir para reduzir esse tempo de diagnóstico?
O gargalo esquecido: educação médica e diagnóstico por imagem
Ao atuar por anos no campo da educação médica em endometriose e na assistência ao diagnóstico por imagem da doença, é fácil perceber que há uma deficiência colossal na educação médica, que envolve dois pontos principais:
- os clínicos, que não foram ensinados a acreditar e acolher a menina que chega ao consultório com cólicas menstruais que impactam a qualidade de vida, e deixam de sugerir a endometriose entre os possíveis diagnósticos;
- os médicos que trabalham com diagnóstico por imagem, que são, em sua esmagadora maioria, pouco treinados nos dois principais exames de diagnóstico de endometriose: a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética.
Há poucos profissionais no Brasil que, de fato, entendem do diagnóstico por imagem da endometriose em adolescentes. Acredito que não cheguem a 100. Para ser muito sincera, acredito que não haverá grande avanço na qualidade de vida das mulheres do SUS se boa parte do dinheiro não se destinar à educação médica.
Se os esforços deste programa se concentrarem em como aumentar sobremaneira o diagnóstico de endometriose nas nossas adolescentes, certamente teremos um desfecho de sucesso deste programa.
Dr. Karina Giassi - CRM-RS 39.080 | RQE 26524
médica radiologista especializada em diagnóstico por imagem
Doutora em Radiologia pela Faculdade de Medicina da USP.
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