Luto, melancolia e sofrimento psíquico: quando a dor da perda requer cuidado profissional
Por Dra. Dorli Kamkhagi , 24/05/2026
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Nem toda perda está ligada à morte. Rompimentos, doenças, mudanças bruscas e perdas simbólicas também podem desencadear processos profundos de sofrimento emocional que exigem acolhimento e escuta terapêutica, explica Dra. Dorli Kamkhagi.
Os estudos sobre o luto mostram que esse enfrentamento doloroso pode ser vivido de formas diferentes, de acordo com a intensidade da perda e a subjetividade de cada indivíduo.
Os lutos fazem parte da experiência humana e não estão necessariamente relacionados à morte de alguém querido. Na clínica psicológica, é possível observar como a vivência das perdas assume diferentes intensidades, dependendo da história emocional construída com aquilo que foi perdido.
A perda de um trabalho que representava identidade pessoal e reconhecimento social, por exemplo, pode provocar um sofrimento intenso. Da mesma forma, mudanças forçadas de país, motivadas por guerras ou perseguições religiosas, também podem gerar profundas marcas emocionais. A perda de um lugar social, da pátria ou até mesmo o acompanhamento de uma doença terminal em alguém próximo podem desencadear adoecimentos psíquicos e processos de luto que precisam ser elaborados.
Em muitos casos, torna-se necessário um espaço adequado para que essas pessoas consigam compreender e elaborar suas perdas, dores e angústias.
Luto e melancolia não são a mesma coisa
Para Freud, existe uma diferença importante entre luto e melancolia. O luto pode ser entendido como a dor intensa provocada pela perda de alguém muito querido ou de algo emocionalmente significativo.
Durante o luto, a pessoa pode se identificar profundamente com quem partiu ou com aquilo que perdeu, como também ocorre em rompimentos amorosos. É comum haver momentos de recolhimento, dificuldade de se conectar com o mundo externo e necessidade de permanecer junto às lembranças e ao sofrimento vivido internamente.
Com o passar do tempo, porém, muitas pessoas conseguem retomar gradualmente a vida cotidiana, reconstruindo vínculos e reorganizando emocionalmente a relação com a ausência.
Na melancolia, o sofrimento costuma assumir outra dimensão. A identificação com aquilo que foi perdido pode ser tão intensa que a pessoa encontra dificuldade em diferenciar o próprio “eu” da perda vivida. Isso pode tornar o sofrimento mais persistente e dificultar a reconstrução emocional.
Ainda assim, alguns processos de luto conseguem, ao longo do tempo, reencontrar caminhos possíveis. O estabelecimento de novos vínculos afetivos e sociais pode auxiliar nessa travessia entre a dor e a retomada da vida.
Mesmo carregando marcas emocionais profundas, muitas pessoas conseguem voltar a se inserir em novos espaços, relações e experiências, permitindo que culpas, angústias e sofrimentos encontrem outros significados.
Quando o sofrimento se torna incapacitante
Nos casos em que a melancolia se transforma em um luto patológico, a pessoa pode sentir dificuldade de sair dessa vivência dolorosa e limitante. Muitas relatam a sensação de que partes de si desapareceram junto com aquilo que foi perdido.
Nesse contexto, a psicoterapia pode desempenhar um papel fundamental na escuta dessa dor e na elaboração do vazio provocado pela perda.
Em determinadas situações, o acompanhamento psiquiátrico também pode ser necessário, especialmente nos momentos em que o sofrimento se torna mais intenso e incapacitante, oferecendo suporte emocional durante o processo de enlutamento.
Na prática clínica, alguns lutos se mostram especialmente devastadores, como a perda de um filho. Ainda assim, buscar ajuda terapêutica pode representar um caminho importante para reconstruir sentidos e reorganizar a vida emocional.
A escuta terapêutica oferece um espaço em que dores, angústias e até os silêncios podem ganhar novos significados. Aos poucos, dentro de um vínculo acolhedor, medos e fantasmas podem ser elaborados, permitindo que as perdas adquiram diferentes contornos ao longo da vida.
A escuta terapêutica é, sobretudo, um espaço de acolhimento, capaz de ajudar quem sofre a compreender e atravessar sua dor.
Dra. Dorli Kamkhagi – CRP 15511PsicologiaHead Nacional Brazil Health
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