O ar de São Paulo no inverno está te adoecendo sem você perceber?
No inverno, a poluição e o ar seco se intensificam na capital e podem piorar sintomas respiratórios. O pneumologista Dr. Arthur Feltrin explica por que isso acontece e quais sinais merecem atenção antes de virar crise.
Por Redação Brazil Health , 15/07/2026
6 min de leitura
São Paulo em julho tem um cheiro diferente. Não é perfume de outono nem brisa de inverno europeu. É o cheiro de ar parado, fumaça concentrada e trânsito represado pela inversão térmica. É o cheiro de uma cidade de 22 milhões de pessoas respirando juntas, em dias em que o ar simplesmente não consegue se dispersar.
E é exatamente nesse período que seu sistema respiratório trabalha mais, se defende menos e precisa de mais atenção.
Este artigo não é para te assustar. É para te deixar mais consciente e mais preparado. E olha que eu sou pneumologista e asmático ao mesmo tempo.
Por que o inverno é mais perigoso para quem respira em São Paulo
No inverno paulistano, dois fenômenos se combinam de forma quase perfeita para piorar a qualidade do ar: a seca e a inversão térmica.
A seca: São Paulo passa meses sem chuva significativa. Sem chuva, não há lavagem natural dos poluentes na atmosfera. O material particulado, a poeira, a fumaça e as partículas de combustão se acumulam na camada de ar próxima à superfície.
A inversão térmica: Em condições normais, o ar quente sobe e leva os poluentes para cima, onde se dispersam. No inverno, uma camada de ar frio fica presa embaixo de uma camada quente, bloqueando esse movimento. Os poluentes ficam exatamente onde você respira: na altura da calçada, da janela do carro e do playground.
O resultado? Em 2024, São Paulo chegou a ocupar o 4º lugar entre as cidades mais poluídas do planeta, com concentração média de PM2,5 de 15,9 µg/m³, três vezes acima do limite anual recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que é de 5 µg/m³.
O que esses poluentes fazem com as suas vias respiratórias
Existem dois tipos principais de material particulado: o PM10, partículas de até 10 micrômetros, provenientes de poeira e da indústria, e o PM2,5, partículas de até 2,5 micrômetros, geradas principalmente por queimadas e pela combustão de veículos. Este segundo é o mais preocupante.
Por ser extremamente fino, cerca de 30 vezes menor que um fio de cabelo, o PM2,5 ultrapassa o filtro natural do nariz e da garganta, alcança os brônquios e, nos casos mais graves, penetra nos alvéolos pulmonares e cai na corrente sanguínea. Uma vez ali, pode provocar inflamação sistêmica, disfunção cardiovascular e, em exposição crônica, aumentar o risco de câncer de pulmão.
No dia a dia, os efeitos são mais silenciosos: irritação das mucosas, tosse persistente, rinite que não melhora, sinusite que retorna todo inverno e maior vulnerabilidade a infecções respiratórias, como gripes, resfriados e pneumonias.
Os dados do SUS confirmam: no inverno, as internações por doenças respiratórias aumentam em até 15%. Em crianças, a procura por prontos-socorros sobe 25% nos dias subsequentes aos picos de poluição.
O frio em si: um estressor respiratório subestimado
O ar frio é, quimicamente, um ar mais seco. Quando inalado em grandes volumes, durante exercício físico ao ar livre, por exemplo, ele resseca as mucosas do nariz e da garganta, reduzindo sua eficiência como barreira protetora.
As mucosas úmidas são a primeira linha de defesa do sistema respiratório. Elas aprisionam partículas, vírus e bactérias antes que cheguem aos pulmões, e os cílios, estruturas microscópicas que revestem as vias aéreas, as varrem continuamente para fora. Quando o ar fica seco e frio, esse sistema fica comprometido.
Além disso, a baixa temperatura provoca broncoespasmo leve em pessoas com vias aéreas mais reativas, como portadores de asma, rinite alérgica ou histórico de bronquite. Não à toa, julho e agosto são os meses com maior número de crises respiratórias na cidade.
E há outro fator frequentemente ignorado: no inverno, passamos mais tempo em ambientes fechados, como escritórios com ar-condicionado, carros com os vidros fechados e apartamentos sem ventilação. Nesses ambientes, a concentração de alérgenos, ácaros, fungos e pelos de animais, além de poluentes internos, pode ser igual ou superior à do ar externo.
Quem deve se preocupar mais
Todos que vivem em São Paulo têm seu sistema respiratório exposto, mas alguns grupos são especialmente vulneráveis:
- Crianças: sistema imunológico ainda em desenvolvimento e vias aéreas menores, que obstruem com mais facilidade.
- Idosos acima de 65 anos: risco de mortalidade por causas respiratórias aumenta em até 12% em dias de pico de poluição, segundo pesquisa da FMUSP.
- Portadores de DPOC, asma e bronquite crônica: a exposição à poluição acelera a progressão da doença e aumenta o risco de exacerbações graves.
- Corredores e praticantes de exercícios ao ar livre: respiram volumes maiores de ar e, portanto, maiores volumes de poluentes.
- Trabalhadores expostos ao trânsito: motoristas, motoboys e guardas de trânsito acumulam exposição diária muito acima da média.
Uma palavra sobre longevidade pulmonar
Existe um conceito que uso muito na minha prática clínica: o pulmão envelhece. E, ao contrário de outros órgãos, ele tem uma capacidade regenerativa muito limitada. Cada episódio de inflamação intensa, cada inverno de exposição crônica a poluentes, cada infecção não tratada adequadamente deixa uma marca e vai reduzindo, silenciosamente, a reserva funcional pulmonar.
A boa notícia é que essa trajetória pode ser desacelerada, com hábitos preventivos simples, atenção aos sinais que o corpo dá, como tosse que não passa, falta de ar em esforços que antes eram tranquilos e cansaço inexplicável no inverno, além de acompanhamento médico quando necessário.
Cuidar das vias respiratórias não é preocupação de quem já está doente. É estratégia de quem quer viver mais e melhor.
Uma reflexão final
São Paulo deixou de ser a cidade da garoa há décadas. O inverno de hoje é seco, poluído e desafiador para quem depende das vias aéreas, ou seja, todos nós.
Não precisamos esperar virar estatística do pronto-socorro para tomar providências. A medicina preventiva começa com consciência: saber o que o ar que você respira faz com o seu corpo e fazer pequenas escolhas diárias que protegem esse sistema extraordinário, que trabalha 20 mil vezes por dia sem pedir nada em troca.
Cuide bem do ar que você respira. Porque ele está cuidando, ou deixando de cuidar, de você.
Dr. Arthur Feltrin – CRM-SP 179706
Médico pneumologista, com especialização Medicina do Estilo de Vida e Nutrologia pelo Einstein Hospital Israelita.
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