Nem todo diagnóstico precisa de exames. E isso é uma boa notícia
A consulta, a escuta e o exame físico continuam sendo os principais instrumentos da Pediatria. O pediatra Paulo Taufi Maluf explica por que exames e antibióticos devem ser utilizados com critério.
Por Paulo Taufi Maluf , 21/07/2026
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De longo tempo a esta data, tem-se instituído, na cultura da sociedade, com grande participação indevida por parte da classe médica, que a assistência, principalmente nas unidades de pronto atendimento, torna-se mais enriquecida quanto mais exames forem solicitados. É comum ouvir de pessoas, quando perguntadas sobre determinado serviço ou sobre algum médico, se o atendimento foi bom, e a resposta, afirmativa, demonstra que, afinal, pediram-lhes todos os exames, daí se sentirem seguras quanto ao que lhes foi oferecido.
Um dos luminares da Medicina no início do século XX, Sir William Osler, postulava: “converse detidamente com seu paciente, ele lhe revelará o diagnóstico”. Isso para demonstrar que o médico, inquirindo de forma solerte sobre os sintomas apresentados e executando um exame físico acurado, poderá, em muitos casos, prescindir de laboratório ou de imagens, ou saberá solicitá-los de maneira objetiva e restrita, apenas para confirmar a hipótese levantada pelos dados clínicos. Em contraposição, não é raro que exames, colhidos ao acaso e sem uma premissa sobre o que esperar de seus achados, apresentem alterações inesperadas e desvinculadas da apresentação clínica, fazendo com que o tratamento estabelecido se baseie nos resultados, e não no quadro do paciente.
Muitos dos protocolos exarados por sociedades médicas internacionais reiteram, exatamente, a firme orientação de que o médico assistente baseie a conduta terapêutica em seu tirocínio no exame do paciente. Na área da Pediatria, as afecções respiratórias constituem parcela considerável dentre as doenças agudas da infância. Sabe-se, ademais, que, em sua maior parte, os vírus são os agentes causais mais frequentes. Como exemplo, as queixas de febre, em grande parte das vezes associadas a infecções faringoamigdalianas, apenas em pequena parcela dos casos demandam uso de antibióticos. Se não forem observadas as condições clínicas que fazem inferir a presença de origem bacteriana, o emprego de antibióticos passa a ser prescindível, e exames acessórios, tais como hemograma ou provas inflamatórias, como a proteína C reativa, nem devem ser cogitados, pois não trarão contribuição adicional.
O que dizem as recomendações internacionais
A Academia Americana de Pediatria, acerca de enfermidades pulmonares agudas, também altamente incidentes em crianças em determinadas estações do ano, recomenda, em seus guidelines, que se abra mão de radiografias ou estudos laboratoriais se o estado geral do pequeno paciente e sua ausculta pulmonar forem suficientemente conclusivos, e que o uso parcimonioso de antimicrobianos tenha por base esses subsídios.
Em suma, não submeter crianças à irradiação desnecessária, bem como ao desconforto de punções venosas para exames sem o critério adequado, deve ser preocupação do médico. A introdução de antibióticos deve atentar para o fato de que, caso injustificada, pode trazer à criança efeitos colaterais, mesmo que pouco frequentes, além de suscitar o risco de resistência bacteriana, cujo aumento tem sido alvo particular de apreensão da atenção global à saúde.
Dr. Paulo Taufi Maluf - CRM 21769 | RQE 93377
Graduação e livre-docência em Pediatria pela Faculdade de Medicina-USP
Oncologista
Hematologista
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