Pediatria

Cannabis Medicinal no Autismo: Esperança ou Risco?

O debate sobre a utilização da cannabis para tratar sintomas do autismo cresce, refletindo avanços científicos, relatos de pacientes e desafios na prática clínica.

Por Dra. Fabiana Feijão Nogueira , 06/10/2025

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Cannabis Medicinal no Autismo: Esperança ou Risco?

Nos últimos anos, o uso medicinal da cannabis deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a fazer parte de conversas em famílias, consultórios e debates públicos. Histórias de melhora no sono, redução de crises de agressividade e maior engajamento social circulam nas redes, despertando curiosidade e esperança. Mas, entre relatos pessoais e expectativas elevadas, a pergunta permanece: o que a ciência realmente sabe e até onde é seguro avançar?

O papel do sistema endocanabinoide no autismo

O interesse em compreender como os extratos de cannabis atuam no manejo de diversas condições, incluindo o autismo, nos trouxe para um olhar mais atento sobre o sistema endocanabinóide, um mecanismo presente em todo o corpo, fundamental para a regulação de funções como humor, sono, memória, apetite, resposta ao estresse e controle da inflamação. Esse sistema funciona por meio de receptores (CB1, mais abundantes no cérebro e envolvidos em processos como memória, comportamento e emoção; e CB2, mais presentes nas células do sistema imunológico, ligados à regulação de processos inflamatórios), endocanabinoides produzidos naturalmente pelo corpo, sendo a anandamida o mais conhecido, e enzimas que controlam sua produção e degradação.

Um estudo conduzido na Universidade de Stanford identificou, em pessoas no espectro autista, níveis reduzidos de anandamida, o endocanabinoide que ajuda a regular emoções e comportamento social, e sinais de disfunção na sinalização dos receptores CB1. Os achados, semelhantes aos obtidos em modelos animais, reforçam a hipótese de que alterações nesse sistema possam estar relacionadas a mecanismos fisiopatológicos do autismo. Isso alimenta a possibilidade de que compostos da cannabis, ao modular o sistema endocanabinóide, possam influenciar positivamente alguns sintomas.

Principais compostos e experiências clínicas

A planta cannabis contém cerca de uma centena de canabinoides descritos, mas menos de uma dezena tem sido estudada para uso medicinal. O CBD (canabidiol) é o mais pesquisado, não é psicoativo e apresenta propriedades ansiolíticas, anti-inflamatórias e anticonvulsivantes bem documentadas. O THC (tetra-hidrocanabinol), muitas vezes visto como vilão, é o componente psicoativo mais conhecido e, em doses elevadas, pode causar prejuízos cognitivos, alterações de humor e está associado a maior risco de quadros psicóticos, especialmente em cérebros jovens. Ainda assim, quando empregado em doses controladas e sob acompanhamento médico, pode ter papel no manejo de sintomas desafiadores, sobretudo em pacientes que já utilizam múltiplos medicamentos com efeitos colaterais relevantes, permitindo reduzir ou substituir parte dessas drogas. Outros canabinoides também têm despertado interesse, ainda que com evidências iniciais, como o CBG (cannabigerol), que apresenta potencial para melhorar foco e atenção, e o CBN (canabinol), com possível efeito sedativo útil no manejo de distúrbios do sono.

Médicos que utilizam de forma consistente a cannabis medicinal no manejo do autismo relatam que, quando bem indicada e monitorada, a resposta pode ser positiva e significativa. Um exemplo foi o de um adolescente com autismo em sua apresentação mais severa, com frequentes episódios de desregulação emocional que geravam mordidas profundas nos próprios braços, que não cicatrizavam e representavam risco importante de infecção. Ele estava em tratamento com três medicamentos: ansiolítico, antidepressivo e antipsicótico, além de terapia comportamental. Com apenas algum controle das crises, permanecia apático e pouco interativo, possivelmente devido aos efeitos sedativos das medicações. Com a introdução de um extrato full spectrum contendo CBD e THC em proporção individualizada, foi possível reduzir gradualmente para apenas um medicamento em dose baixa. A evolução clínica incluiu cicatrização das lesões, maior engajamento social, melhora do sono e estabilização do peso. Relatos semelhantes vêm sendo documentados por outros profissionais em diferentes contextos clínicos.

Desafios, regulamentação e perspectivas

No Brasil, a Anvisa autoriza a prescrição de produtos à base de cannabis mediante receita médica especial. Esses produtos podem ser adquiridos em farmácias autorizadas ou importados com autorização prévia. Não existem protocolos específicos para uso no autismo, o que torna fundamental a avaliação individualizada, considerando histórico clínico, perfil de resposta, segurança e expectativa de benefício.

Apesar das observações clínicas promissoras, ainda existem lacunas importantes: a dose ideal, a formulação mais eficaz, a padronização de qualidade entre lotes e a identificação dos perfis de pacientes que respondem melhor. Responder a essas questões exige estudos robustos, com metodologia rigorosa e acompanhamento a longo prazo.

Enquanto a ciência avança, o uso da cannabis no autismo deve ser pautado por prudência, acompanhamento especializado e individualização. A esperança é real, mas precisa caminhar junto com a responsabilidade, para que cada passo dado nesse campo seja sólido, seguro e baseado em evidências.

Fabiana Feijão Nogueira – CRM 161.516, RQE 131.447

Pediatra especializada em desenvolvimento infantil