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Internacionalização da Saúde: o Brasil começa a ocupar espaço no mercado mais competitivo

Empresas nacionais ampliam presença nos Estados Unidos e enfrentam desafios de regulação, cultura e competitividade para provar que inovação também nasce por aqui

Por Redação Brazil Health , 22/12/2025

5 min de leitura

Internacionalização da Saúde: o Brasil começa a ocupar espaço no mercado mais competitivo

Entrar no mercado de saúde dos Estados Unidos sempre foi um teste de fogo para qualquer empresa, independentemente do tamanho. Quando se trata de tecnologia e inovação clínica, o desafio ganha proporções ainda maiores: não basta ter um bom produto - é preciso competir com gigantes, cumprir exigências regulatórias rigorosas e mostrar que a inteligência brasileira pode gerar valor global.

A MV, uma das maiores desenvolvedoras de software de gestão hospitalar da América Latina, decidiu enfrentar esse cenário. Em parceria com o grupo Medstation, a empresa iniciou sua operação na Flórida, com investimento estimado em US$ 10 milhões. O objetivo é ambicioso: levar para o mercado americano a visão de cuidado integrado que combina jornada digital, telemedicina e inteligência artificial.

Segundo o CEO Paulo Magnus, a internacionalização exige mais do que superar barreiras técnicas. “Levar soluções digitais de alta complexidade implica posicionamento político, econômico e diplomático. É uma prova de maturidade para a empresa e para o país”, afirma. Para viabilizar a entrada, a MV transformou seu prontuário eletrônico em uma ferramenta agnóstica, capaz de se integrar a qualquer sistema de gestão hospitalar - modelo seguido pelas grandes companhias americanas de Electronic Medical Record (EMR).

A travessia brasileira rumo aos EUA

O caso da MV não é isolado. Outras empresas brasileiras vêm apostando no mesmo caminho, cada uma a seu modo e com desafios semelhantes. A startup Sofya, especializada em inteligência artificial clínica, estabeleceu sede em Miami e foi uma das selecionadas para o programa de aceleração da Mayo Clinic Platform, referência mundial em inovação médica. O processo de expansão exigiu adaptar o modelo de negócios ao sistema de remuneração americano, ajustar a codificação médica a padrões como ICD e LOINC, e encontrar talentos locais capazes de dialogar com o ecossistema hospitalar dos EUA.

No campo do bem-estar corporativo, a Wellhub (ex-Gympass) também fincou bandeira em Nova York. Após consolidar sua presença global, a empresa enfrenta o desafio de competir com planos de benefícios tradicionais e atender às exigências de privacidade e segurança de dados do mercado americano.

Já a Portal Telemedicina, referência em telehealth e diagnósticos com IA, iniciou parcerias com clínicas e provedores norte-americanos, enfrentando obstáculos de interoperabilidade e compliance com a lei HIPAA, que regula o uso de dados de saúde nos EUA.

No setor farmacêutico, grupos como Eurofarma, Biolab e EMS também trilham o caminho da internacionalização. A Eurofarma já atua em mais de 20 países e mantém parcerias produtivas com empresas dos Estados Unidos. A Biolab prepara dossiês para entrada no mercado americano, enquanto a EMS obteve patente e registro na FDA para o primeiro medicamento de origem brasileira disponível no país, um feito inédito que reforça a capacidade nacional de inovar mesmo diante das mais rígidas exigências regulatórias.

Os obstáculos no caminho da globalização

Apesar dos avanços, as empresas concordam que os obstáculos são numerosos. A começar pela regulação: adequar produtos e sistemas aos padrões da FDA ou aos requisitos de segurança de dados da HIPAA demanda tempo, recursos e consultorias especializadas. Há também a adaptação cultural e de modelo de negócios, já que o sistema de saúde americano é descentralizado e pautado por provedores e seguradoras, o que exige novas estratégias de precificação e relacionamento.

A concorrência é outro ponto sensível. O ecossistema americano é povoado por big techs, startups e players tradicionais com forte poder de marca e investimento. Para uma companhia brasileira, competir nesse território significa provar sua relevância tecnológica e sua capacidade de oferecer valor clínico e operacional tangível.

Aprendizado de mão dupla

Ainda assim, o movimento é promissor. A entrada de empresas brasileiras nos EUA não apenas abre portas para novos negócios, mas também acelera o aprendizado local em certificações, escalabilidade e práticas de governança. A troca é mútua: ao mesmo tempo em que absorvem padrões internacionais de qualidade e compliance, essas companhias levam ao mercado americano a experiência em gestão hospitalar pública, cuidado populacional e eficiência de custos - áreas em que o Brasil acumula expertise relevante.

Mais do que expandir fronteiras, esse novo ciclo de internacionalização inaugura uma mudança simbólica: o Brasil deixa de ser mero consumidor de tecnologia para se tornar protagonista na definição dos rumos da inovação em saúde.

Alexandre Hercules é editor-chefe da Brazil Health (www.brazilhealth.com)