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Cuidadores informais são a base oculta da saúde no Brasil

Sem suporte adequado, pessoas que cuidam de parentes doentes ou idosos mantêm o cuidado funcionando e evidenciam fragilidades do sistema

Por Redação Brazil Health , 11/05/2026

4 min de leitura

Cuidadores informais são a base oculta da saúde no Brasil

Durante muito tempo, o sistema de saúde foi pensado a partir de uma lógica: há um paciente, há um profissional de saúde, há um tratamento. Mas, na prática, quem vive a saúde fora dos hospitais sabe que existe um terceiro ator sustentando toda essa engrenagem. Ele quase nunca aparece nas estatísticas, raramente é citado nas políticas públicas e dificilmente é considerado nas estratégias de mercado. Estou falando do cuidador.

Ao longo do estudo Cuidadores no Brasil, conduzido pela HSR Health, ficou evidente que grande parte do cuidado em saúde no país acontece dentro das casas, mediado por pessoas que não se formaram para isso, mas que aprenderam na urgência. Na prática, isso significa que a imensa maioria dos cuidadores assume essa função sem preparo estruturado. Em nosso estudo, 96% dos respondentes não receberam treinamento formal completo.

Quem são os cuidadores que sustentam a rotina

São familiares e amigos que assumem, de repente, funções técnicas, emocionais e logísticas complexas, sem preparo estruturado e com pouco apoio. Esse papel recai majoritariamente sobre mulheres (69%), geralmente entre 35 e 54 anos (93%), que cuidam de parentes próximos, em especial pais e mães idosos, que representam a maior parte dos casos.

O cuidado, na maioria das vezes, não começa com planejamento. Ele começa com um chamado. Um diagnóstico, uma queda, uma piora clínica. A partir daí, a vida se reorganiza. Quem cuida aprende fazendo, improvisa soluções, administra medicações, acompanha sinais, organiza consultas, interpreta orientações médicas e, ao mesmo tempo, oferece suporte emocional contínuo.

O peso diário do cuidado e a sobrecarga silenciosa

O cuidado ocupa uma parte significativa do dia, e a maioria dedica mais de 5 horas por dia a essas atividades. Em muitos casos, trata-se de uma jornada praticamente integral, marcada por tarefas que vão desde alimentação e higiene até a administração de medicamentos e supervisão constante.

Com o tempo, o cuidado deixa de ser um evento pontual e passa a ser o pano de fundo permanente da rotina. É nesse ponto que surgem a exaustão física, o desgaste emocional e o isolamento social. Não por acaso, mais da metade dos cuidadores relata impactos negativos na própria saúde e bem-estar, especialmente relacionados a cansaço físico, dores e estresse mental, o que mostra que a sobrecarga não é apenas física. Ela é também emocional e estrutural. Grande parte desses cuidadores enfrenta essa jornada praticamente sozinha: cerca de 70% não recebem ajuda externa, e a maioria relata ter pouco ou nenhum apoio estruturado. Isso reforça a sensação de isolamento e responsabilidade exclusiva.

Por que o sistema falha com quem garante o tratamento

Um dos achados mais importantes do estudo é justamente esse desalinhamento estrutural. O sistema de saúde foi desenhado para o paciente, mas é o cuidador quem sustenta o tratamento no dia a dia. A comunicação é fragmentada, a linguagem costuma ser técnica demais, e o suporte prático é insuficiente.

Isso tem implicações diretas para toda a cadeia da saúde. A adesão ao tratamento, a segurança no uso de medicamentos, a continuidade terapêutica e a própria experiência do paciente passam, inevitavelmente, pelo cuidador. Ignorar esse elo é comprometer resultados.

Além disso, o cenário tende a se intensificar nos próximos anos. Com o envelhecimento da população brasileira, o número de pessoas que precisarão de cuidados deve crescer de forma significativa, ampliando ainda mais a pressão sobre cuidadores informais.

Por isso, acredito que estamos diante de uma mudança necessária de perspectiva. Incorporar o cuidador como stakeholder formal não é apenas uma questão de empatia. É uma decisão estratégica.

Cuidadores não precisam apenas de reconhecimento simbólico. Precisam de orientação clara, soluções mais simples, suporte emocional e estruturas que reduzam o risco de erro e o peso da jornada. Olhar para eles é olhar para a saúde como ela realmente acontece.

Mesmo com tantos desafios, o cuidado ainda carrega uma dimensão positiva importante: a maioria dos cuidadores relata sentir gratificação na experiência, principalmente pelo fortalecimento de vínculos e pelo senso de propósito gerado ao cuidar. Ou seja, se forem vistos com mais atenção, os cuidadores devem ter um nível alto de satisfação com o trabalho.

Se quisermos um sistema mais eficiente, mais seguro e mais humano, a pergunta que precisamos sustentar é simples, mas incômoda: quem está cuidando de quem cuida?

Bruno Mattos

sócio-diretor da HSR Health