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A saúde entrou na era da produtividade

Hospitais, operadoras e empresas de tecnologia aceleram investimentos para enfrentar o aumento da demanda e a escalada dos custos

Por Redação Brazil Health , 04/06/2026

7 min de leitura

A saúde entrou na era da produtividade

Durante décadas, crescer na saúde significava construir novos hospitais, ampliar alas e investir em equipamentos. Hoje, porém, a lógica começa a mudar. Em um cenário marcado pelo aumento da demanda por atendimento, escassez de especialistas e custos crescentes, hospitais, operadoras e empresas de tecnologia travam uma nova corrida: a busca por produtividade.

O movimento ocorre em um momento particularmente desafiador para o setor. O Brasil envelhece rapidamente, a demanda por exames e tratamentos se intensifica e a inflação médica segue pressionando as contas de toda a cadeia. Ao mesmo tempo, as instituições precisam manter padrões elevados de qualidade assistencial, segurança do paciente e sustentabilidade financeira.

Nesse contexto, a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para assumir papel estratégico na operação da saúde.

“O aumento dos custos assistenciais apenas evidenciou que não basta processar mais pacientes. É preciso parar de perder recursos em fluxos fragmentados. A busca por eficiência operacional tornou-se uma estratégia de sobrevivência”, afirma André Morganti, CEO da VX Medical Innovation.

Segundo ele, o desafio se torna ainda mais evidente diante da crescente demanda por exames diagnósticos e da dificuldade de ampliar a oferta de especialistas no mesmo ritmo.

“O paciente não escolhe hora para ficar doente. O trauma e o AVC acontecem nas madrugadas e nos fins de semana. Em muitas regiões do país, a conta humana e operacional simplesmente não fecha”, diz.

A empresa, especializada em telerradiologia, projeta alcançar faturamento de aproximadamente R$ 70 milhões em 2026, impulsionada justamente pela crescente demanda dos hospitais por soluções capazes de ampliar a capacidade operacional sem exigir expansão física.

Eficiência vira prioridade estratégica

Para Paulo Magnus, CEO da MV, empresa especializada em tecnologia para saúde, a transformação em curso vai muito além da digitalização de processos.

“A MV não acredita em excelência assistencial sem eficiência. O hospital moderno precisa entregar desfechos clínicos mais ágeis e orientados por dados, mas também operar com inteligência, integração e capacidade de decisão em tempo real”, afirma.

Segundo o executivo, os principais gargalos enfrentados pelas instituições de saúde continuam ligados à fragmentação de sistemas, excesso de processos manuais, retrabalho e dificuldade de acesso a informações estratégicas.

A resposta para esses desafios vem da integração de dados, automação de processos e uso crescente da inteligência artificial. “Os hospitais perceberam que não basta apenas armazenar informação. É preciso orquestrar esses dados e transformá-los em decisões ágeis e precisas”, diz Magnus.

Essa mudança também está alterando a forma como os investimentos são realizados. Em vez de priorizar exclusivamente infraestrutura física, muitas instituições passaram a direcionar recursos para plataformas digitais, interoperabilidade e sistemas capazes de aumentar a produtividade dos ativos já existentes.

Fazer mais com a estrutura que já existe

A busca por eficiência também é observada dentro dos grandes hospitais.

Para Daniel Greca, diretor de Saúde Populacional e Inovação do Hospital Sírio-Libanês, a produtividade passou a ser um componente essencial para garantir sustentabilidade financeira e capacidade de reinvestimento.

“Os esforços de eficiência permitem que as instituições mantenham a qualidade assistencial e a capacidade de reinvestir em novos processos que gerem mais eficiência operacional e produtividade”, afirma.

Segundo ele, a lógica dos investimentos vem mudando à medida que o setor busca retornos mais rápidos e menor imobilização de capital.

“É natural que a inovação venha de alternativas mais leves, escaláveis e de menor risco. Os investimentos em automação e redução de custos estão diretamente ligados à necessidade de criar capacidade financeira para investir em novos modelos de negócio”, explica.

Greca acredita que existe um amplo espaço para tecnologias capazes de automatizar atividades que não exigem julgamento humano, tanto em processos administrativos quanto assistenciais.

“O papel do líder hoje é saber separar o que realmente gera valor operacional e clínico de meras curiosidades tecnológicas”, ressalta.

A inteligência artificial sai do discurso e entra na operação

A inteligência artificial é uma das protagonistas dessa transformação. Na radiologia, por exemplo, ela já é utilizada para organizar filas de exames, identificar prioridades clínicas, apoiar a elaboração de laudos e realizar auditorias automatizadas. Em outras áreas, ajuda hospitais a prever riscos assistenciais, otimizar ocupação de leitos, reduzir desperdícios e acelerar processos administrativos.

Empresas especializadas em inteligência clínica também começam a ganhar espaço dentro das instituições. A Munai, conhecida pelo desenvolvimento do Robô Laura, utiliza IA para identificar precocemente riscos assistenciais e apoiar equipes médicas na priorização de pacientes. Segundo Mayara Ostwal, gerente comercial da empresa, os ganhos mais relevantes surgem quando a tecnologia atua diretamente nos gargalos operacionais.

“O principal papel da IA é aumentar capacidade operacional sem aumentar complexidade. Ela ajuda organizando prioridades, analisando grandes volumes de dados em tempo real e apoiando decisões operacionais mais rápidas”, afirma.

Apesar do avanço acelerado, especialistas concordam que a tecnologia não substitui profissionais de saúde, mas amplia sua capacidade de decisão.

Sustentabilidade financeira entra na equação

A pressão por eficiência não se limita aos hospitais. As operadoras de saúde também buscam alternativas para enfrentar o crescimento contínuo dos custos assistenciais. Para Ricardo Salem, diretor de Saúde do grupo Care Plus, a sustentabilidade do sistema tornou-se um desafio compartilhado por todo o ecossistema.

“Mais do que uma questão de eficiência tática, trata-se de garantir a perenidade e a qualidade do cuidado no longo prazo”, afirma. Segundo ele, a transformação passa por fortalecer a atenção primária, ampliar ações preventivas e utilizar tecnologia para coordenar melhor a jornada dos pacientes.

“Quando tornamos a porta de entrada do sistema mais inteligente e fluida, conseguimos guiar esse paciente por uma jornada preventiva muito mais resolutiva”, explica.

Para Salem, a interoperabilidade entre hospitais, operadoras, clínicas e empresas de tecnologia será um dos pilares da sustentabilidade futura do setor. “O envelhecimento demográfico é o grande fator de pressão dos próximos anos. O equilíbrio entre qualidade assistencial, experiência do paciente e controle de custos dependerá cada vez mais de uma navegação coordenada da jornada de cuidado.”

Uma transformação sem volta

Embora cada segmento da cadeia tenha desafios específicos, existe consenso sobre um ponto: a transformação digital deixou de ser tendência para se tornar uma necessidade estratégica.

O setor de saúde passa por um processo semelhante ao vivido por outras indústrias nos últimos anos, impulsionado por automação, análise de dados e inteligência artificial. A diferença é que, nesse caso, a eficiência operacional não impacta apenas resultados financeiros, mas também a qualidade do cuidado e a experiência do paciente.

A nova corrida da saúde brasileira já começou. E, ao que tudo indica, ela será vencida não necessariamente por quem construir mais hospitais, mas por quem conseguir operar melhor os que já existem.

Alexandre Hercules é editor-chefe da Brazil Health (www.brazilhealth.com)